Escrito nas Entrelinhas, Capítulo 5

Escrito nas Entrelinhas, Capítulo 5

*27 de Outubro*

Os dias seguintes ao funeral de Christine não trouxeram nada de bom. O tempo manteve-se cinzento e frio. Grace Falls viu-se obrigada a enterrar mais dois jovens. Contando com a preciosa e secreta ajuda da médium Agatha, a polícia acabou por encontrar os corpos de ambos os jovens desaparecidos. Patie foi encontrada morta na piscina de uma casa de emigrantes. Tudo levava a crer que ela tinha assaltado a casa e caído na piscina depois de beber bastante, acabando por morrer afogada. A Polícia e a Medicina Legal não sabiam determinar com certeza se fora acidente ou fora suicídio, já que Patie tinha alguns cortes nos pulsos, o que indiciava que algo não estaria bem. 

Quanto a Daniel, o corpo dele fora encontrado a 15 quilómetros de Grace Falls. Ele tinha sido colhido por um comboio e o motorista da composição nem se apercebera, já que aquele local costumava estar coberto por névoa o ano inteiro. Daniel tinha sido colhido mortalmente no dia em que desaparecera. O rapaz levava uns auscultadores nos ouvidos, facto que levou a polícia a considerar que ele estava a ouvir música e não dera pela aproximação do comboio. 

Jules foi completamente abaixo com a morte de Daniel. Ele nutrira no passado uma atracção pelo rapaz, atracção que fora recíproca. Eles tinham chegado inclusive a trocar algumas carícias íntimas nessa altura, em segredo. Jules recordava-se com carinho desses tempos. Fora na altura em que ele começara a sentir algo diferente por rapazes.

Esses sentimentos não eram sentimentos agradáveis. Jules considerava esses sentimentos no mínimo, estranhos. Causavam-lhe confusão e sofrimento. Porém, quando ele estava com Daniel, as coisas processaram-se de forma muito natural. Ambos iam brincar para a cascata de Grace Falls, que dava nome à cidade. O calor, as curiosidades em relação ao corpo alheio, despido, fizeram com que ambos descobrissem um tipo de prazer que nunca antes haviam experimentado.

E agora, ali estava ele. A testemunhar o funeral de mais uma pessoa que significara algo para si. Jules começou a dormir mal e a ter pesadelos. Ele passou a tomar Valium às escondidas do pai e a cortar-se todos os dias. Eram cortes bastante superficiais, apesar de tudo. Ele não queria chamar a atenção. Queria apenas libertar-se da dor e tristeza. O pai, estranhando o comportamento do filho, tão absorto, decidiu fazer-lhe uma surpresa…

*31 de Outubro*

O dia amanhecera solarengo e quente! Era o dia das bruxas, data muito festejada um pouco por todo o país! Mas esse dia seria especial por outro motivo! Várias carrinhas chegaram nessa manhã a casa de Jules, com uma série de mesas e empregados!

- Pai, vais dar uma festa? - perguntou Jules, quando acordou, admirado com a movimentação no jardim.

- Não é todos os dias que se faz 17 anos, filho! Parabéns! - exclamou Eddie, dando uma valente palmada nas costas do filho.

- Ena pai, com tanta coisa já nem me lembrava que fazia anos hoje…. Tens aí a minha prenda? - perguntou Jules, feliz.

- Decidi dar-te duas prendas, Jules! A primeira é a que estás a ver: mandei dar uma festa e convidei todo o corpo estudantil do liceu! Segundei sei, muitos deles hão-de vir cá ter, mais logo! - respondeu Eddie, muito satisfeito consigo próprio.

- ‘Tás a gozar! Uma festa com o liceu todo?!? E a outra prenda, pai?

- A outra prenda recebes quando soprares as velas do bolo! Agora, toca a levantar! Hoje levo-te à escola!

Jules sorriu feliz, puxando as mangas do pijama para o pai não ver os pulsos. Olhando para o pai, perguntou:

- Não vais trabalhar hoje?

O pai negou com a cabeça e respondeu:

- Não. Depois de tudo o que tem vindo a acontecer, acho que é uma óptima ideia celebrar os teus anos em grande! Tirei o dia para organizar as coisas. A mãe vai falar contigo à hora de almoço pelo Criss-Cross! Quanto à tua festa, ela começa às 16 horas! Agora vá, chega de conversa! Espero-te na cozinha!

Animado com a perspectiva de ter uma festa com todos os seus colegas e amigos, a disposição de Jules mudou completamente! Foi tomar banho a cantarolar, imaginado o que iria fazer com a prenda que o pai lhe tinha prometido!

- “Será que Matt também vem?” - pensou ele, enquanto se ensaboava.

Os pensamentos de Jules rapidamente voaram para cenários bem “coloridos”. Ele a preparar-se para soprar no bolo de aniversário e Matt a surgir de dentro do bolo, a cantar os “parabéns a você”, com uma vela grande e bem erecta, desejosa que Jules a soprasse. E Jules sopraria e sugaria aquela vela, com todo o gosto. Ele sentiu um enorme prazer quando, momentos depois, atingiu o orgasmo.

A manhã daquele dia passou a correr. Muitos colegas e amigos desejaram-lhe os parabéns. De igual forma, muitos professores também o felicitaram. Houve brincadeiras em todos os tempos livres, com ele a ser levado ao poste, a ser obrigado a tomar banho vestido depois da aula de educação física, a ter de receber beijinhos de todas as funcionárias da escola que se cruzavam com ele. Naquele dia, Matt não fora à escola. Questionando-se sobre os motivos, enviou uma mensagem a Matt a perguntar porque faltara à escola.

- “O meu irmão está doente e os meus pais estão a trabalhar. Não podia deixá-lo sozinho.

Desconsolado, Jules questionou:

- “Achas que vais poder vir à minha festa de anos?

A resposta de Matt não tardou:

- “Eu não me esqueci. Só fazes anos às dez e vinte da noite. Eu vou tentar aparecer, mas não prometo nada. Xau.

Jules sorriu um pouco. Matt não se tinha esquecido! Até sabia a hora exacta! Tentado não pensar mais no assunto, Jules foi para casa à hora de almoço, onde a mãe já o aguardava numa chamada na rede social Criss-Cross.

- Então filhote lindo, parabéns! Como está o meu bebé? - perguntou Laura, a mãe de Jules.

- Mamã! Oi! Tudo bem! O papá preparou uma festa com a malta toda do liceu! Estão a montar três minibares, vê lá tu!

- O teu pai contou-me, filho! Tu mereces! Olha querido, a mãe gostava de estar aí hoje, mas sabes como é…

A mãe de Jules era cantora country e fazia muitos espetáculos pelo país todo, entre a Primavera e o final do Outono. Só costumava estar por casa durante o Inverno, altura em que planeava as tours do ano seguinte.

- Está tudo a correr muito bem, querido! A mãe está com a agenda cheia de concertos! Este ano até no Inverno vou estar ocupada, mas eu prometo que vou passar as festas a casa! Se não for antes, estarei contigo no Natal!

- A sério? Que bom! Tenho muitas saudades tuas! - choramingou Jules. 

A última vez que vira a mãe fora em Agosto, quando o pai o levara a Atlantic City, onde a mãe se encontrava a actuar, pelos anos dela. Laura tentou reprimir o choro, mas não conseguiu.

- A mãe também tem muitas saudades tuas. E não sou a única…. Advinha quem está aqui comigo em San Diego?

Uma voz divertida comentou logo:

- Então bebé chorão? Já molhaste a fralda? Ah ah ah ah!

Jules gritou feliz:

- Não pode ser! Bianca! És tu? Oh Bianca!! - Jules gemeu e começou a chorar, feliz.

Bianca era a irmã mais velha de Jules. Ela era professora e estava sujeita a todos os anos partir para longe de casa e da família. Naquele ano ela tinha sido colocada no Sul da Califórnia. 

- Sou eu sim, seu tonto! Muitos parabéns! Com que então dezassete anos, hã? Já soube o que o pai te vai oferecer! Agora vê lá se andas com juízo!

- O pai está a preparar uma festa, vê lá tu! - comentou Jules, colocando o telefone em modo altifalante, com o pai sentado ao lado a rir-se, divertido. 

- Eu já soube disso! O pai anda a ficar manso com a idade, ah ah ah! No meu tempo não havia nada disso… - gracejou Bianca, metendo-se com o pai.

- Não havia dinheiro para isso, querida… - respondeu o pai de imediato. - Está tudo bem por aí? Vocês não precisam de nada?

- Tudo ok por aqui, pai! Vem aí uma tempestade, pelo que a mãe e eu vamos ter de ir embora, que não temos a vossa vida! Se pudermos, ligamos mais à noite! Beijinhos aos dois e parabéns ao nosso aniversariante! - remataram Bianca e Laura.

- Esperem lá! Tempestade? - Estou? Estou? - Jules mostrou-se preocupado, mas a chamada já tinha sido desligada.

- A tua mãe disse que estão a enfrentar uma ramificação de um furacão qualquer. Nada de grave, mas elas têm de ir para os abrigos… - respondeu o pai de Jules com naturalidade.

- E elas vão ficar bem, pai?

- Vão, filho. Não te preocupes. A tempestade ainda está sobre o oceano, só atinge terra daqui a quatro ou cinco horas. Dá tempo mais do que suficiente para elas se abrigarem em local seguro. 

- Temos de manter os telemóveis carregados!

- Jules, hoje é o teu dia de anos! Eu sei que estás preocupado, mas não há nada que possas fazer. Além disso, tanto a tua mãe como a tua irmã estão habituadas a estas coisas. Eu, se fosse a ti, passava um pouco pelas brasas agora, para estar em condições para a festa! Hoje é o teu dia!

Suspirando feliz, Jules abraçou o pai e seguiu o seu conselho. Pelo caminho, ainda deu uma vista de olhos ao que andavam a fazer os empregados que o pai contratara e que estavam a deixar Maurice prestes a ter um ataque de nervos.





Horas mais tarde, Jules acordou um pouco sonolento, mas escutando música e algumas vozes, foi à janela e espreitou pelas cortinas. A festa já tinha começado! Rindo-se, rapidamente tomou um banho e vestiu-se. Saiu do quarto e fechou a porta à chave. Reparou que todos os quartos estavam fechados à chave. Havia ali dedo do pai, pela certa. Descendo as escadas, deparou-se com um cenário típico da noite de Halloween.

Alguma decoração fantasmagórica iluminava a casa, os jardins e a piscina. Dezenas de velas em forma de abóbora tinham sido dispostas pelos locais, junto com fantasmas, zombies e morcegos. Algumas bruxas riam-se aqui e ali, dando gargalhadas grotescas. Havia um minibar montado no jardim à entrada de casa, outro na sala de estar e outro no jardim nas traseiras da casa, à beira da piscina.

Todos os bares serviam uma miscelânea de bebidas coloridas, a grande maioria sem álcool. Eddie tinha avisado as barmaids para servirem apenas bebidas de frutas e cerveja sem álcool. Eddie viu o filho a descer as escadas, todo aperaltado e a ajeitar o cabelo. No entanto, Jules vinha descalço, o que fez o pai levantar o sobrolho. Aproximando-se, perguntou-lhe como se sentia, ao que este respondeu:

- Eu sinto-me lindamente, pai! Obrigado por todo este trabalho!

O pai, orgulhoso, sorriu e conduziu o filho para ele ver como tinha ficado todo o espaço. Alguns colegas de Jules já tinham chegado. Quando o viram, foram ter com ele e logo o pai se afastou subtilmente.

- O teu pai é “muita” baril, mano! - comentou um rapaz chamado Rogers. - Tens vários bares abertos espalhados pela casa, esta decoração toda e ainda um DJ? Muito bom! Parabéns!            

- Segundo o que o meu pai me disse, os tipos não vão servir álcool…. Pelo menos não por agora… - respondeu Jules, levemente acabrunhado. Ele e Rogers não eram muito chegados.

- Oh, isso é o que ele diz! Aquela tipa ali, ela sabe fazer boas misturas! E mais logo, mais à noitinha, vou dar uma volta com ela! - congratulou-se Rogers, piscando o olho a uma das barmaids.

Rogers tinha, até certo ponto, razão. Apesar do pai de Jules não querer que fossem servidas bebidas com álcool, os adolescentes souberam contornar a questão, trazendo bebidas às escondidas, misturando-as com os cocktails que as barmaids serviam. A festa foi crescendo, à medida que muitos outros colegas de Jules foram chegando.

As horas passaram a correr. A noite cedo deu lugar ao dia e nas ruas de Grace Falls, as crianças passeavam em grupos, fantasiadas e animadas com a busca de doces típica do Halloween. Maurice e Eddie recebiam as crianças que vinham bater à casa de Jules, entregando-lhes doces, fatias de pizza, bolos e canetas da empresa de Eddie. Muitos dos colegas de Jules já estavam a divertir-se, a rir e a dançar, no jardim por detrás da casa, junto da piscina, onde o DJ tinha montado a sua mesa.

A um recanto, alguns rapazes e raparigas fumavam charros, discretamente. Jules, como anfitrião, circulava entre todos os grupinhos. Todos queriam que ele bebesse e fumasse, para celebrar o dia. Apesar dele tentar evitar fazê-lo, a verdade é que ele começava a ficar “tocado” e ainda nem tinha soprado as velas! O pai observava tudo à distância. Estava aborrecido por ver que alguns jovens estavam já a fazer figuras tristes, rindo alto e contando piadas bastante porcas, mas Maurice relembrou-lhe, mais do que uma vez, que eram adolescentes e que aquela era a forma deles se divertirem.

Por volta das 22 horas, bateram à porta de Jules e este foi abrir, pensando que seria Matt. Porém, Jules teve uma surpresa: quem estava à porta não era Matt, mas sim Michelle, a sua ex-namorada. Para piorar as coisas, ela não vinha sozinha. Vinha muito bem-acompanhada por um dos capitães do futebol do liceu, Rick Blass, um atraente rapaz, com quase um metro e noventa. Michelle aproximou-se de Jules, deu-lhe dois beijos na face e disse:

- Olá Jules! Grande festa! Parabéns! Presumo que conheces o Rick? Ele é o meu novo namorado!

- Já nos conhecemos de vista. Prazer, Rick! - respondeu Jules com azedume. 

- Obrigado! Parabéns pá! Está brutal o ambiente ali no jardim! Gostei muito! - comentou Rick.

- A que horas sopras as velas, Jules? Eu e o Rick não vamos demorar-nos, mas quisemos passar por aqui para te felicitar e dar a nossa prenda… - Michelle entregou um saco que continha um perfume que ela sabia que Jules gostava muito.

- Obrigado por virem e obrigado pela prenda! Quanto a isso, é mais daqui a bocado… - Jules estava a ficar cheio de ciúmes pela forma como Michelle lhe atirava à cara que tinha superado o fim da relação tão depressa.

- Ainda bem que gostaste da prenda… - sorriu Michelle, de forma provocante.

Como o ambiente começasse a ficar pesado, Rick rematou:

- Olha “bro”, vamos dar uma voltinha por aí, ok? Até já!

- Força! Divirtam-se! - respondeu Jules, enquanto Michelle dava um beijo a Rick e dava-lhe as mãos, seguindo juntos para dentro de casa de Jules.

Às vinte e duas e vinte, Jules recebeu um telefonema da mãe e da irmã a felicitá-lo. A tempestade afinal não tinha atingido San Diego, já que mudara de direcção quando ainda estava sobre o mar. Suspirando aliviado, Jules aproximou-se de um dos bares e começou a conversar com uma das barmaids, durante muito tempo. Desabafava, enquanto pedia bebidas umas atrás das outras, até que o pai lhe tocou no ombro:

- Acho que devias cantar os parabéns e partir o bolo. Começa a ficar tarde, Jules. Amanhã tens escola…

- Que eu saiba, amanhã é feriado! - respondeu Jules com alguma rispidez, bebendo o copo que tinha na mão de um só trago.

- Não gostei desse tom de voz, Jules Sullivan! Eu não sou nenhum dos teus colegas, eu sou o teu pai! Vê lá se queres ficar de castigo antes da festa acabar! - ameaçou o pai.

Suspirando aborrecido, Jules pediu outra bebida, olhou para o pai e respondeu:

- Desculpa lá…. Estou chateado, só isso!

- Que se passa para estares chateado? Tens aqui todos os teus amigos e colegas! E todos eles estão a gostar da festa! - comentou Eddie.
 
Naquele momento, Jules sentiu uma enorme vontade dizer ao pai que a única pessoa que ele queria ter ali era Matt. Inesperadamente, Maurice interrompeu a conversa dos dois, dizendo que Jules tinha alguém à espera, à porta de casa.

- “Já é quase meia-noite! Quem será a esta hora?”  - questionaram-se pai e filho, seguindo para o hall de entrada.

Para alegria de Jules, quem se encontrava à entrada de casa era Matt! Feliz por vê-lo, Jules gritou: “Matt! Sempre vieste!” e abraçou-o intensamente. O gesto não passou despercebido a Eddie, que abanou a cabeça. Matt retribuiu o abraço com alguma brusquidão, ficando surpreso com a alegria de Jules em vê-lo.

- Boa noite, senhor Sullivan, boa noite Jules. Desculpem chegar tão tarde. O meu irmão está doente e o meu pai só chegou a casa há bocadinho. Eu nem era para vir, mas como ouvi música, decidi passar por aqui para te dar a tua prenda… - declarou Matt, com serenidade. 

Eddie sorriu e cumprimentou o jovem, convidando-o a entrar:

- Sê bem-vindo Matt! Então que se passa com o teu irmão?

- Apanhou um resfriado. Nada demais, mas a febre não baixou durante o dia, só ao anoitecer. Sabe, nós não tomamos essas drogas que vocês usam para se tratarem. Mas as nossas ervas por vezes demoram a fazer efeito. Felizmente, ele agora está um pouco melhor e a dormir tranquilamente.

Virando-se para Jules, sorriu e disse:

- Parabéns! Espero que gostes da minha prenda! - Matt entregou um saco grande a Jules, que de imediato pegou no que estava lá dentro movido pela curiosidade.

Com o alarido que Jules havia feito, momentos antes, muitos dos convidados da festa tinham vindo ver o que se tinha passado e assistiam a tudo, cochichando baixinho:

- Olha, o índio também veio!

- Já reparaste que os dois estão descalços?

- Olha, não tinha reparado, não! Realmente! O Jules ‘tá a ficar apanhadinho!

- Lol! És tão parvo!

- Olha, se eu soubesse, tinha comprado uns chinelos ao Jules, ah ah ah!

- Eu também! Eh eh eh eh!

- Já agora um par para o índio também! Ah ah ah ah!

Jules desembrulhou a prenda que Matt lhe oferecera. Dentro do embrulho estava uma capa castanho-escura, cosida de forma artesanal. Os colegas e amigos de Jules desataram a rir quando viram a prenda e alguns foram logo a correr para o jardim traseiro contar o que se estava a passar, atraindo a atenção de toda a gente, que de imediato se deslocou à sala. Olhando surpreendido para o estranho presente, Jules perguntou:

- Obrigado Matt! Hããã… O que é isto?

Matt ficou bastante incomodado por ver que todos o observavam com ar gozão. Alguns já nem se importavam de falar em voz alta o que lhes passava na cabeça, consequência de uma mente toldada pelo álcool.

- Isso é uma capa para o Inverno! Feita com pele de bisonte! É um costume da minha tribo dar uma capa destas aos rapazes que atingem a maioridade!

- Ah ah ah ah ah ah! Tu ouviste-me aquilo? Maioridade! - gracejou Rogers. - E já nem existem bisontes, pá!  

- Sim, maioridade! Na minha tribo um rapaz torna-se homem aos 17 anos! E quanto aos bisontes, existem sim! Só que não são fáceis de encontrar! - respondeu Matt, chateado.

- Pois, eles até são uns bichinhos pequeninos, não é? - comentou uma rapariga, provocando a risota geral.

- Eles vivem em reservas, caso não saibas! E é-nos permitido caçar alguns, que são criados para ocasiões especiais! - comentou Matt, começando a enervar-se.

- Ai…! Que nojo! Matar os animais por desporto e prazer! Isso é horrível! - comentou Michelle, recebendo a aprovação e aplausos por parte dos colegas.  

- Seja como for… - interrompeu Eddie - Vamos cantar os parabéns ao nosso aniversariante! Está na hora dele soprar as velas e ver a prenda que eu tenho para ele!

- Assim é que se fala! Viva o senhor Sullivan! ‘Bora lá! - responderam os colegas e amigos de Jules, agarrando nele e levando-o para o jardim em frente da piscina, onde Maurice os aguardava com um grande bolo iluminado por dezassete velas.

- “Parabéns a você, nesta data querida…” - gritaram todos em coro, fazendo um enorme estardalhaço.

Depois de cantarem os parabéns, Jules soprou as velas e o pai foi buscar a prenda que tinha para ele - uma mota! Os colegas e amigos começaram a bater palmas e Jules abraçou o pai, entusiasmado! A mota era uma Suzuki GT 750, em tons azuis-esverdeados, que contrastavam lindamente com as partes metalizadas do resto da mota! Já não se fabricava aquele modelo, pelo que o pai tinha tido bastante trabalho a encontrar e mandar restaurar uma moto daquelas! Estava como nova! Jules, em êxtase, montou na mota, ligou-a e começou a manejá-la, todo feliz! Os amigos e colegas rodearam-no e todos quiseram tirar selfies com Jules! Alguns quiseram mesmo sentar-se na mota com ele para experimentar!

Entretido que estava com a mota, Jules só muito mais tarde se apercebeu que Matt se tinha ido embora, sem se despedir sequer! A prenda que Matt lhe tinha dado ficara no hall de entrada, esquecida. Sentindo-se invadido por uma onda de tristeza enorme, Jules anunciou, de repente:

- Acabou a festa! Vão-se embora!

Os colegas e amigos começaram a ir embora, agarrando as garrafas que podiam dos minibares, rindo às gargalhadas. Eddie e Maurice aproximaram-se de Jules, que disse:

- Deixem-me ficar sozinho! Eu quero ficar sozinho!

Eddie queria explicações, mas Maurice disse-lhe baixinho:

- Ele não está em condições, deixe-o estar! Amanhã fala com ele!

O pai de Jules estava furioso! O que pensariam os colegas e amigos do filho com aquele final de festa tão estúpido? Praguejando, ele saiu de casa, sendo acompanhado de Maurice, que o tentava acalmar. Jules deu por si sozinho no jardim ao lado da piscina. Copos vazios, bocados de bolo e pizza espalhados pelo chão. Estava ali muita porcaria para limpar no dia seguinte.

Ele aproximou-se aos ziguezagues de um dos arbustos onde decidiu esvaziar a bexiga, que estava bastante cheia. Enquanto o fazia, começou a sentir-se tonto. Não tardou para começar a vomitar. Sentindo-se pessimamente, depois de vomitar várias vezes, ele arrastou-se para dentro de casa, com dificuldade e a chorar, acabando por adormecer no chão da sala.

[Continua...]

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