04/05/2017

Existo, logo penso! #2.1


Começa hoje a 2ª temporada de posts da temática "Existo, logo penso!"

Embora estivesse a evitar abordar o tema sobre o qual vou escrever, até porque é um dos temas abordados no meu próximo livro, a verdade é que se tornou fundamental falar nele. Estou a falar do Desafio da "Baleia Azul".

Este jogo começou há praticamente um ano atrás, quando uma televisão russa apresentou uma reportagem sobre grupos de jovens pró-suicídio, numa rede social russa, chamada "VKontake". Supostamente, os jovens recebiam mensagens enigmáticas dos moderadores de grupos privados nessa rede, na qual quem entrava não conseguia sair, sob pena de ameaças de morte a amigos, namorados, familiares próximos ou até mesmo dos seus animais de estimação. O fenómeno é complexo. E estranho. Pessoas mentalmente saudáveis dificilmente compreenderão o que leva uma pessoa a aceitar entrar num desafio cuja etapa final é a Morte. 

Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar, o desafio tem como "mascote" uma baleia azul. Porquê? 

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Embora seja uma espécie ameaçada, o cetáceo não tem instintos suicidas.

A baleia azul pertence à família dos cetáceos. Como muitas outras baleias, por vezes elas dão à costa e acabam por morrer, já que são animais de grande porte e que podem pesar quase 200 toneladas. Os cientistas ainda não encontraram uma explicação para esse fenómeno. Foi por causa das baleias por vezes decidirem dar à costa propositadamente, acabando por morrer, que os criadores deste desafio decidiram dar-lhe o nome de baleia azul. 

Eis os 50 desafios deste jogo:

1 – Com uma navalha, escreva “F57” na palma da mão e em seguida envie uma foto para o curador.

2 – Veja filmes de terror e psicadélicos às 4h20 da manhã, mas deve ser um filme que o curador indique e depois vai fazer perguntas para ver se o viu mesmo.

3 – Corte o braço com uma lâmina, “3 cortes grandes” mas é preciso ser sobre as veias e o corte não precisa ser muito profundo. Envie foto para o curador e seguirá para o próximo nível.

4 – Desenhe uma baleia azul e envie a foto para o curador.

5 – Se está pronto para se tornar uma baleia escreva “SIM” na sua perna. Se não, corte-se muitas vezes, “Castigue-se”.

6 – Tarefa em código.

7 – Escreva “F40” na sua mão e envie uma foto ao curador.

8 – Escreva “#i_am_whale” no seu estado do VKontakte (Rede Social Russa) ou no Facebook. O texto significa “Eu sou uma Baleia”.

9 – Ele vai-lhe dar uma missão baseada no seu maior medo, ele quer fazer superar esse medo.

10 – Acorde às 4h20 da manhã e suba a um telhado, quanto mais alto melhor.

11 – Desenhe uma foto de uma baleia azul na mão com uma navalha e envie a foto para o curador.

12 – Veja filmes de terror e psicadélicos, todas as tardes.

13 – Ouça as músicas que os “curadores” te enviarem.

14 – Corte o seu lábio.

15 – Fure a sua mão com uma agulha muitas vezes.

16 – Faça algo doloroso, “magoe-se”, fique doente.

17 – Procure o telhado mais alto e fique na borda por algum tempo.

18 – Suba a uma ponte e sente-se na borda por algum tempo.

19 – Suba a um guindaste ou pelo menos tente.

20 – No próximo passo o curador irá verificar se você é de confiança.

21 – Encontre outra baleia azul, “outro participante”, o curador vai indicar-lhe.

23 – Pendure-se novamente num telhado alto e apoie-se na borda com as pernas penduradas.

23 – Outra tarefa em código.

24 – Tarefa secreta.

25 – Reunião com uma baleia azul que o curador lhe vai indicar.

26 – O curador irá indicar a data da sua morte e você aceitará.

27 – Acorde às 4h20 e vá a um caminho de ferro.

28 – Não fale com ninguém o dia todo.

29 – Faça um voto de que você é realmente uma Baleia Azul.

30 ao 49 – Todos os dias deve acordar às 4h20 da manhã, ver a vídeos de terror, ouvir música que “eles” lhe enviam, fazer um corte no seu corpo por dia e falar “com uma baleia”.

50 – Tire a sua própria vida.

Este desafio já fez mais de 150 vítimas na Rússia e em Portugal, hoje mesmo, mais dois casos foram assinalados. Portugal já conta com 8 vítimas deste jogo - felizmente nenhum dos casos portugueses morreu. 

O que levará jovens a mutilarem-se e no último "nível" a cometerem suicídio?

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Num dos desafios, temos de desenhar uma baleia azul nos nossos braços com uma navalha e enviar a fotografia como prova para o "Curador" - pessoa que está a verificar se cumprimos todas as etapas.

Eu já fui adolescente, como muitos dos leitores que acompanham o Entrelinhas. Eu levo este tipo de casos bastante a sério. Eu próprio tentei o suicídio, pelo menos duas vezes, enquanto adolescente e uma já em adulto. Consigo entender um pouco de todos os lados da questão (pessoas que criticam; quem entra no jogo e as suas motivações, pelo menos em parte). 

No meu tempo de adolescente, a Internet ainda era um luxo. Ela dava os primeiros passos a um nível global. A Wikipédia ainda não havia nascido. Nasceria meia-dúzia de anos depois. Ainda eram poucas pessoas que tinham acesso à Internet. Eu nem computador tinha em casa. Quando precisava de fazer trabalhos ou queria conhecer pessoas pela Internet, ia ao velhinho mIRC na biblioteca pública. A minha adolescência foi bastante conturbada por uma série de coisas, desde o bullying, o divórcio dos meus pais, cenas que presenciei e que adorava apagar da minha memória, abusos, etc. etc. etc. O que é certo é que naquela altura muitos temas eram tabu, desde a sexualidade ao divórcio, principalmente em terras pequenas como aquela onde vivia. Sem ter ninguém com quem conversar, desabafar, exprimir o que precisava, comecei a sofrer de bulimia. Daí a passar a odiar-me por algo que fugia ao meu controle, foi um instante. Depois de me ter apaixonado pelo primeiro rapaz da minha vida e ter suportado por 3 anos esse segredo só comigo, um dia ganhei coragem para desabafar com uma professora que era minha directora de turma sobre isso. Nunca tinha sentido algo assim e fazia-me confusão. Ela mostrou-se prestável e disse-me que na idade era normal de isso acontecer. Porém, quando o ano terminou, ela contou a todas as turmas a minha história, em jeito de gracejo. Senti-me mais humilhado do que nunca e tudo isso contribuiu para que durante esse Verão eu tentasse o suicídio. Sentia-me só, desamparado e tinha perdido a confiança nas pessoas todas. Sentia que não merecia mais estar vivo, que mais valia acabar com o meu sofrimento.   

Relembrando estas dolorosas memórias, começa a minha empatia por este seres humanos que acabam por cair nas teias deste perigoso, doentio e manipulador desafio da Baleia Azul. Muitas vezes as pessoas sentem-se tão sozinhas, tão desamparadas, com tanto medo de serem rejeitadas que acham que nada vai correr-lhes bem. Por mais que tentem ver e fazer alguma coisa, sozinhas não conseguem. 

Seria fácil atribuir culpas. "É culpa dos pais!" "É culpa das modernices, que no meu tempo não era nada assim!" "É culpa da sociedade!" 

Bem vistas as coisas, sim, é verdade. É culpa de tudo e de todos. Todos tempos culpa nisto. Temos culpa quando somos demasiado críticos. Temos culpa quando julgamos precipitadamente. Temos culpa quando somos permissivos. Temos culpa quando desvalorizamos a liberdade. Temos culpa quando não há tempo para falar às refeições, porque estão a dar as notícias ou as telenovelas ou os Big Brother da vida. Temos culpa quando nos importa mais assistir a um jogo de futebol do que saber que tipos de música os nossos filhos ouvem, que tipo de séries é que assistem. Temos culpa quando nos importamos de ir à missa, mas mal saímos da igreja já maldizemos este ou aquele. Temos culpa por delegarmos o papel de pais e educadores à escola, onde os filhos passam cada vez mais tempo. Temos culpa em dar telemóveis e tablets de última geração às crianças e adolescentes, fazendo com que estes se esqueçam de brincar e de ter contacto com a natureza. Quantos filhos de agora nunca foram à procura de joaninhas? Quantos filhos, hoje em dia, já tentaram apanhar uma borboleta, ficando cativados com a beleza das suas asas? Quantos filhos, hoje em dia, vão passear para os campos em busca de grilos? 

Vistas as coisas assim, vemos que a culpa não é só dos jovens. Também é dos pais e família. E não esqueçamos a Sociedade. Ah! Essa malvada sociedade colectiva, que adora impôr as suas crenças e ideais nos corações e nos pensamentos de todos nós! Parece que actualmente ninguém suporta estar com ninguém. Parece que pais e filhos não conseguem ter conversas francas onde não haja tabus. Agora que vivemos na era da comunicação. Parece que actualmente vivemos de forma desenfreada e extremista. Os jovens de hoje em dia já nascem com a vida bastante facilitada. Muitos recebem semanadas, mesadas, dinheiro que gastam para ir a festas e afins. É importante que também eles compreendam que têm de cumprir a sua parte. Eles merecem um futuro. Mas também têm de lutar por ele, não podem esperar que o futuro lhes caia no colo!

Existe também muita desconsideração pelos problemas das pessoas. Hoje em dia as pessoas desvalorizam os problemas dos outros, focando-se nos seus. Faltam ouvintes. Melhor dizendo, faltam bons ouvintes. Pessoas que escutem, de forma interessada e com vontade de ajudar no que for necessário.

Até quando será necessário perdermos algo para que possamos dar valor ao que realmente importa?

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"Só se vê bem com o coração; O que é essencial é invisível aos olhos."

Queria terminar o post escrevendo algo que me dedicaram num livro, na minha adolescência....

"Se precisares de uma mão amiga, lembra-te sempre que eu tenho duas..."


Enviem-me um email caso precisem de conversar, pedir conselhos, desabafar! Terei todo o gosto em ajudar no que puder! 

entrelinhasdirecionadas@outlook.pt

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá Paulo! Muito obrigado!
      No sábado regresso com um tema mais alegre!
      Abreijos :)

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  2. De facto à pessoas que se suicidam porque sim. O Alentejo é mato nesse campo, as grandes cidades também. Os jovens que levam lavagens e juntam-se ao Daesh e que acabam mortos...

    A Adolescência é complicada, porque os jovens pensam que são imortais e não o são...

    Enfim, uns matam-se outros colocam bombas e matam mais gente...

    Assim, assim como assim...

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    Respostas
    1. Eu sei Francisco. Eu também pensei nisso mas não quis abordar o assunto por esse prisma. De facto, o que mais falta é haver uma educação em casa mais coerente e os pais deixarem de tentar ser "amigos", despromovendo-se do papel de pais e educadores. Com isso talvez as coisas voltem a melhorar... Quem sabe?

      Abraço :)

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  3. Post fundamental e necessário ao momento. Na verdade, um dos poucos questionamentos lúcidos sobre a temática na web. Infelizmente a internet tem sido frequentemente utilizada para a destruição da capacidade de pensamento próprio!

    Mandaram bem demais no desenvolver do assunto.

    Grande Abraço!

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    1. Olá Oscar! Assim é, meu amigo, assim é. As pessoas limitam-se a ingerir a informação que nos "penetra" pelos olhos dentro. Muitas vezes tomam como verdade apenas um rumor, ao invés de procurarem pesquisar primeiro. Ainda existe quem pense que, e passo a citar: "se está na Internet, é porque é verdadeiro!"

      A natureza humana precisa urgentemente de mudar. precisamos de regressar às origens e criar novos hábitos mais saudáveis.

      Grande abraço e muito obrigado pelas palavras amáveis! ^^

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