Existo, logo penso! #1.17 [PT]



A palavra "Não" geralmente é difícil de dizer e mais difícil ainda de se ouvir.

Volta e meia, nas nossas vidas, temos de lidar com a terrível e temível palavra: não. Escutar um “não” é sempre desagradável. E muitas vezes, quem o diz também fica desagradado, porque lhe custa dizê-lo.

Um dos principais problemas do “não” começa bem cedo, quando ainda somos bebés ou crianças pequenas. Queremos isto ou aquilo, fazemos birra se não nos derem. Muitos pais, cansados de escutar os berros, por vezes em locais públicos, envergonhados e conscientes que quem assiste “à cena” estará a julgá-los, acabam por ceder a esta “guerra de egos”. E é assim que começa o problema. As crianças e os jovens que não estão habituados a ouvir “não”, acabam por tornar-se adultos arrogantes, mimados e com mania que são superiores às outras pessoas. Sendo assim, torna-se fundamental que os pais, outros familiares e educadores, habituem as crianças e jovens a ouvirem um “não” sempre que seja necessário. Existem grandes diferenças entre uma necessidade real e um simples capricho. Claro que cada caso é um caso e caberá a cada pai/mãe encontrar um equilíbrio e bom senso.

Quando entramos para a escola, cedo começamos a interagir com outras pessoas. E aqui podem começar os primeiros problemas pela falta de se ouvir um não, mais cedo. Esta situação tem uma importância especial um pouco mais tarde, na puberdade e na adolescência. É comum nós criarmos laços com outros rapazes e raparigas, por quem nutrimos maior empatia. Rapidamente, nestas idades, começam a nascer grupos onde nos vamos enquadrando. Fazer parte de um grupo é particularmente importante nesta fase da vida. Sentimo-nos mais fortes, sentimos aquele espírito de camaradagem - no caso dos rapazes, enquanto as raparigas tendem a sentir maior cumplicidade. Geralmente, se pertencermos a um grupo, cremos que se tivermos problemas, os nossos colegas ajudar-nos-ão a “colocar tudo em pratos limpos”. Porém, para fazermos parte de um grupo, por vezes precisamos dar provas de que merecemos essa “honra”. Assim, muitas vezes deparamos com rapazes e raparigas que são “obrigados” a fazer coisas que no seu íntimo não querem fazer. Fumar, beber, ser desagradável com alguém, são alguns dos exemplos. É aqui que reside outro aspecto importante de sabermos dizer não. É importante dizê-lo quando algo não é do nosso agrado. É preciso muita coragem para desafiar um grupo, recusando-nos a fazer algo. E fica aqui uma dica preciosa: é muito mais importante defender a nossa própria identidade, que é única, que "usar" a identidade que possamos adquirir enquanto membro de algum grupo. Geralmente, quem recusa fazer alguma coisa quando está inserido num grupo de amigos, acaba por ser rejeitado pelos outros, para sua grande tristeza. Mas, é muito importante ter em conta que se estes amigos forem nossos amigos de verdade, saberão respeitar a nossa decisão.

E dos grupos passamos a outro campo igualmente importante. Os namoros. Muitos rapazes e por vezes, algumas raparigas, tendem a querer apressar as coisas quando estão num relacionamento. Embora a descoberta da sexualidade esteja a ser cada vez mais precoce, a verdade é que antes de mais, o corpo é nosso e não dos outros. Somos nós quem decide sobre o nosso corpo. Não devemos sentir-nos pressionados[as] a fazer algo que não queiramos. Saber dizer não é extremamente importante também neste campo! Fazer cedências, por medo de represálias, por medo da violência física, verbal e psicológica, cada vez maior entre casais muito jovens, é errado. Isto é chantagem emocional e pode trazer resultados desastrosos, uma vez que nada nos garante que, por cedermos, a outra pessoa vá ficar connosco pelo resto das nossas vidas.

Entretanto, tivemos a festividade do Carnaval há pouco tempo. Está a fazer uma semana que terminou a folia um pouco por todo o Brasil. As mulheres [infelizmente] costumam ser vítimas de abusos na época carnavalesca, enquanto se divertem nos "blocos" durante os desfiles, por homens que muitas vezes não conhecem de lado nenhum e se aproximam delas, achando que as podem beijar à força, bem como fazerem outro tipo de coisas, porque o Carnaval assim o permite. É algo que está enraizado na cultura, mas que parece estar a mudar. As mulheres estão a ganhar coragem e a dizer "Não!" a este tipo de situações e finalmente, começam a ser ouvidas! Só este ano, as denúncias de violência sexual no Carnaval aumentaram 87,9% comparado com o ano passado, segundo dados da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres.

Queria terminar este post convidando-vos a verem um episódio de uma série que aborda de forma muito interessante esta questão. A série é ”Lei & Ordem: Unidade Especial”, [Temporada 16, Episódio 5]. O episódio conta-nos a história de uma rapariga que, ao fazer 18 anos, vai para a universidade, mas porque não tem dinheiro para pagar as propinas, aceita entrar num filme para adultos. No filme a rapariga é forçada a ter relações com dois homens, contra a sua vontade. Repete várias vezes "não!". Mais tarde, dois rapazes da faculdade descobrem o vídeo e acabam por violá-la e começa assim uma demanda para ser feita justiça. Está em causa a ambiguidade do "não!", já que no filme o "não" significava sim e o não quando violada, significava mesmo "não!". [Vejam o episódio se vos parecer confuso o que estou a dizer.]  A dada altura do episódio, a rapariga diz:

As pessoas que trabalham em filmes para adultos, são pessoas iguais às outras. Não merecemos estar sujeitas à agressão.” 

Mais tarde, a rapariga desabafa:

Por ter escolhido trabalhar em pornografia, dois rapazes violaram-me. Como o juiz não acreditou em mim, um dos violadores saiu em liberdade. Eu não escolhi nada disto. Tiraram-me a hipótese de escolher. Agora só me resta uma coisa. Adeus”.


Dizer "não", às vezes é difícil. Mas pode fazer toda a diferença.

Comentários

  1. João! Que riqueza esta postagem. Uma reflexão e tanto. Sempre tive muitos problemas com esta questão em minha vida. A dificuldade em dizer NÃO, principalmente no âmbito familiar. A duras penas e dentro de um processo longo, felizmente, hoje posso dizer que lido melhor com isto e o NÃO já não é uma palavra tão cara assim.

    Beijão querido.

    ps: Grato pelo livro. Fiquei encantado com sua gentileza.

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    1. Oi Paulo! é verdade, lidar com o "não" é muito complicado! Acho difícil alguém superar totalmente essa lição de vida!

      Abreijos :)

      P.S. - Espero que gostes de o ler! ^^

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  2. Nossa, amei ler aqui, isso poderia ser lido por todos os jovens, pois realmente é na juventude que deparamos com tantos obstáculos e barreiras para mantermos nossa posição e o repeito!
    Eu fui educada com tantos "nãos", que hoje me dou por feliz, pois por minha vez eu também precisei dizer os "nãos" aos meus filhos (hoje casados e bem casados, um casal), que vejo-os dizerem aos seus filhos, meus netos, os devidos "nãos", os resultados desses "nãos" são pessoas bem sucedidas e livres, com boa autoestima, nem sempre viver em grupos pode ser uma boa, pois não é fácil mesmo dizer "não"!
    Já tenho netos cursando Faculdade, o mais velho tem 21 anos, eu sou uma idosa com 68 anos completados no começo desse mês, isso só para você poder me conhecer um pouquinho,rsrs!
    Abraços meu novo amigo, que prazer ter você no meu grupo de amigos seguidores!

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    1. Olá Ivone! Muito me alegro por saber um pouco mais de ti! Fico igualmente contente por teres gostado da reflexão. Infelizmente são muitos os casos de pessoas que não conseguem aceitar um "não!". Muitas mulheres - e alguns homens também - sofrem horrores nas suas vidas por causa de outras pessoas que parecem ser incapazes de lidar com o "não".

      Se puderes assistir ao episódio da série que menciono no post, gostava que o fizesses a fim de podermos trocar impressões sobre o mesmo. Achei-o extremamente interessante, quando o vi, há uns meses atrás.

      É sempre bom saber um pouco mais destes amigos que vamos conhecendo na Blogsville!

      Abreijos e obrigado pelo carinho! ^^

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    2. Irei assistir ao episódio, depois conversaremos sobre, amo isso, poder trocar ideias, abraços e obrigada por responder, pois quando percebo que as pessoas voltam nos meus espaços, também respondo, isso forma um bom diálogo virtual!

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    3. Eu tentei arranjar o link para os leitores poderem ver mas não consegui, mas hoje em dia através de canais como a Fox e assim deve ser mais fácil de visualizar o episódio em questão!

      Eu também gosto de ir conversando através dos posts com as pessoas, gosto da troca de ideias e debates que surgem daí! ^^

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  3. Muitas vezes é nos difícil dizer Não, mas ao mesmo tempo somos capazes de começar uma pergunta com: Não queres ir ao café? Não queres conversar comigo? Não queres ir dar uma volta? E de imediato a resposta imediata pode ser Não

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    1. Sabes Francisco? Inconscientemente, isso significa que não queremos mesmo aquilo. Seria um "convite de cortesia". Visto por outro prisma, pode ser uma forma dissimulada de "obrigarmos" a outra pessoa a aceitar o convite ou a responder afirmativamente à questão. Ou pode ser verdadeiramente a nossa intenção estar com aquela pessoa.

      A psicologia tem destas coisas. ;)

      Também existem "não" e "não". Assim acontece no episódio que menciono no post. Cabe-nos a nós entender através de outros aspectos - por exemplo a linguagem corporal - qual dos "não" é que é.

      Abraço :)

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