21/02/2017

Existo, logo penso! #1.16 [PT]


Uma das coisas ao assistir filmes é das emoções que eles nos podem fazer aflorar. Ontem vi um filme que me trouxe recordações dos meus tempos de adolescente. O filme, que abordarei no próximo “My Movies!” é um filme francês sobre “sair do armário”.

Gostei muito do filme. Identifiquei-me bastante com ele. A adolescência é uma idade muito complicada. Se ela já é confusa por tudo o que se passa no nosso interior, o que dizer de tudo o que acontece à nossa volta? É uma fase bem importante e que devíamos, seguramente, explorar o melhor que pudéssemos, enquanto a atravessamos. Ainda assim, eu sou da opinião que é mais fácil de se viver a adolescência agora, do que foi no meu tempo.

Do lado reverso da medalha estão situações como as que são apresentadas no filme. A intolerância e o preconceito estão bem recalcados na sociedade. Num diálogo entre duas personagens do filme, toca-se na ferida:

“- De que tens medo? E se souberem que és lésbica? E daí? As coisas mudaram!”

“- Quem me dera! Achas que eu sou paranóica? Que vemos homofobia em todos os lugares? O que achas? Que está tudo bem porque existe uma lei para o casamento? Tu sabes o que eu ouço no pátio, em casa […]? Tu estavas lá comigo? Ouviste o que eles disseram: É culpa do Nathan, porque ele não foi discreto!” 

Quando leio [e infelizmente leio muito mais do que gostaria] comentários em sites e páginas de redes sociais que dizem: “não entendo porque é que as pessoas têm de fazer tanto mimimi por causa de serem o que são”; “agora é moda ser gay” e outras coisas assim, isso entristece-me. As coisas não são tão lineares assim. Não é tudo “preto no branco”.

A sociedade é que parece impor padrões. Para sermos bem vistos, como pessoas de sucesso, temos de ter uma carreira, sólida, casar, ter filhos, ter carro, ter casa própria, etc. Este é um exemplo do que a sociedade “exige” de nós para nos “aceitar”. Tudo o que fuja a este “guião”, causará estranheza e consequentemente, rejeição. Claro que tudo vai evoluindo. Mudaram-se e adaptaram-se os padrões à medida que o tempo passa. Mas ainda assim, certos “requisitos” ainda prevalecem. É por tudo isso que cada vez mais existem pessoas que se sentem tristes e infelizes. Sentem que não se enquadram nos padrões estabelecidos. Não são elas que estão erradas. É a sociedade que tende a ser demasiado restritiva para com todos nós. A sociedade em si impede-nos de sermos nós mesmos.

O facto de uma pessoa ser o que for não devia ser motivo de medo. Não devia ser motivo para se sentir receio de se sair à rua, de dar a mão à pessoa que amamos, com medo que algum ser desprezível e cobarde se sentir incomodado com aquilo e partir para a violência, chegando a casos extremos ultimamente, um pouco por todo o mundo dito “civilizado”.

Mais ainda porque não acredito que ninguém possa afirmar, com 100% de certeza, que se conhece completamente. Nós passamos pela vida sem nos conhecermos totalmente. Seja por falta de vivências, de experiências, por comodismo, por desinteresse, muito ficará por explorar. Então, que direito tem as pessoas de interferir, de se julgar donas da verdade dos outros?

Ontem, em conversa com um amigo, ele disse-me que a mãe dele não era obrigada a aceitá-lo como ele é. Mas, se não o aceitasse, o problema era dela e só dela. Que ele não iria mudar por causa disso. E eu tenho a dizer que concordo plenamente. Sei que para muito boa gente este tipo de pensamentos pode ser considerado um radicalismo, que nós não podemos ver assim as coisas. Mas, em boa verdade, se as pessoas gostam mesmo de nós, elas devem-nos aceitar como somos, não como aquilo que elas querem que nós sejamos. Porque aí, nós seríamos tão-somente uma reflexão dos sonhos/desejos egoístas dessas pessoas. Não seríamos genuinamente nós.

Eu ainda não consegui dar o salto, pelo menos não completamente. Ainda não consegui dizer aos meus pais que estou num relacionamento homo-afectivo. Já foi preciso uma coragem extraordinária para me abrir com a minha avó. Ela levou a mal e as primeiras palavras que me dirigiu foram:

“Nunca pensei isso de ti. Mas que grande desilusão!”

A cara dela, a expressão e as palavras que me dirigiram, desfizeram-me literalmente. Eu, que sempre a vi como uma pessoa de mente “aberta”, a dizer-me aquilo… Felizmente, passado algum tempo, com algumas conversas pelo meio, a chegada do Jonas, ela conhecê-lo pessoalmente, conversarem os dois, tudo mudou. Ela aceitou o nosso relacionamento e deu-nos o seu “avalo”. Não que isso seja necessário, mas tendo em conta que foi ela que me criou, para mim tem a sua importância. Ainda assim, quer que nos mantenhamos “discretos”. Ela teme a rejeição e o ódio da sociedade para connosco e de certa maneira, para com ela.

Note-se a coincidência – ou talvez não – nas palavras que ela disse e o diálogo do filme. A discrição parece ter que ser algo obrigatório quando se foge ao “padrão”.

Li recentemente que mais de 60% dos jovens britânicos entre os 13 e os 25 anos não querem assumir o quer que seja. Não se assumem como heterossexuais, gays, bissexuais, trans, etc. Até certo ponto, concordo com eles. De facto, parece que sentimos uma necessidade extrema de nos rotularmos. Uma necessidade de nos enquadrarmos aqui ou ali. Talvez seja por isso que as pessoas se assumem cada vez mais cedo.

Resta saber se as pessoas acabam por ser mais felizes se assumirem algo ou não. Para isso, vai depender muito do meio envolvente. Mas, acima de tudo, o importante é sentirmo-nos bem com nós mesmos. Em paz.

Isso, só por si, vale por tudo o resto.

4 comentários:

  1. O mundo mudou muito através do tempo em muitas coisas. Em outras porém continua na idade média. Eu me assumi por completo e plenamente para todos aos 29 anos. Eu decidi isto pq precisava. Não me sentia bem com vida dupla. Me dei bem. Nunca sofri qualquer tipo de constrangimento ou discriminação nem antes e muito menos depois que me abri. Acho que o fim do preconceito só existirá se todos tiverem a coragem de se imporem sem medos. Preconceito só existe pq nos acovardamos.

    Beijão

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  2. Quando o preconceito chega dos próprios gays é que é de lamentar. Junta duas bichas ressabiadas e tens o universo de tudo. Conseguem juntar tudo o que há de mau numa gaja e num gajo

    Abraço amigo

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    Respostas
    1. É bem verdade, infelizmente.
      E outra coisa triste é a inveja das pessoas. não podem ver nada nem ninguém feliz, que tratam logo de estragar tudo... Mas isso ão outros quinhentos! xD

      Abraço :)

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