22/07/2016

Murmúrios ao Vento [PT]

Eu e tu conhecemo-nos no passado mês de Maio, durante o ciclo de cinema LGBTI no Porto. Recordo-me bem do dia. A primeira vez que te vi foi no 3º dia quando, depois do filme, se fez um debate e tu pediste a palavra. Partilhaste a tua opinião e no fim, os nossos olhares cruzaram-se. Sorrimos um para o outro. Já estava a ficar tarde, por isso fui-me embora, afinal para regressar a casa precisava de apanhar o metro e tendo em conta a hora da noite, a viagem ainda iria demorar.

No dia seguinte, último dia do evento, cheguei cedo. Queria falar com os organizadores e ficar com os contactos deles, para irmos trocando impressões. Como não chegavam, sentei-me numa esplanada, a fazer tempo. A esplanada encheu-se de gente rapidamente. A noite estava agradável. Tu apareceste e perguntaste se te podias sentar na minha mesa, já que todas estavam ocupadas e íamos os dois para o mesmo local. Depois de aceitar, com um sorriso, sentaste-te e começamos logo a conversar. Fiquei admirado com o teu sotaque. Havia algo de familiar nele.

Falamos um pouco sobre nós e sobre o ciclo de cinema. No último dia o filme teria como temática o as pessoas intersexo. Nenhum de nós tinha uma ideia concreta do que eram pessoas intersexo. Eu julgava que seriam as pessoas hermafroditas, ou seja pessoas que nascem com os dois sexos, mas tu estavas reticente quanto ao tema. Por duas vezes vieram chamar-nos porque o filme estava a começar. Ambos estávamos a gostar da conversa e à 3ª chamada, fomos para a sala, para assistirmos ao documentário, juntos.

Bom, as ideias que tínhamos sobre o tema eram preconcebidas e estavam erradas. Fiquei um bocado emocionado e horrorizado com o documentário. Muitas pessoas já foram vítimas de verdadeiros desastres e erros humanos, por serem pessoas intersexo. No final do filme, ajudamos a organização a arrumar a sala e como tínhamos tempo, fomos com calma para o metro. A conversa estava boa. Durante a viagem, que durou pouco no teu caso, começamos a falar de nós. Fiquei a saber que estavas cá a fazer um semestre e que daí a pouco tempo regressarias a casa. Quando saíste, trocamos contactos, um abraço e a promessa que nos deveríamos voltar a ver.

Eu estava feliz. Já fazia muito tempo que não conhecia ninguém com quem simpatizasse assim, sem conhecer minimamente. Tinha uma estranha sensação no meu peito. Estranha mas agradável. Quando cheguei a casa já tinha pedido de amizade teu no facebook. Adicionei-te e o meu coração caiu aos pés: tu eras de Barcelona! Fiquei sem saber o que pensar. Era uma coincidência muito grande!

Começamos a conversar. Combinamos um encontro para o domingo seguinte. Passamos praticamente o tempo todo a conversar. Falamos dos nossos interesses, dos nossos gostos! Quanto mais falávamos um com o outro, mais queríamos falar! Quando não estávamos juntos, cada um respeitava o espaço do outro. Não falávamos todos os dias. Preferíamos deixar as conversas para os dias em que saíamos juntos, embora fôssemos trocando impressões com frequência.

A partir daí todos os fins de semana combinamos sair, para eu te dar a conhecer a cidade. Embora já aconhecesses mais ou menos bem, foi bom voltar a passar pela experiência de "reconhecer" o Porto. É uma cidade com uma magia e um brilho muito próprios! Numa das saídas, fomos aos jardins do Palácio de Cristal. É um local que adoro e no qual tenho excelentes memórias. Houve momentos, nessa saída, que me fizeram reviver outros tempos, passados na companhia de outro habitante de Barcelona...

A dada altura, sentamo-nos num local muito aconchegante e mais intimista. Lá, falamos sobre as nossas vidas até ao momento, sonhos, partilhamos desabafos e eu...

... A dada altura, a tremer como varas verdes, confessei o que estava a sentir. Não gostava de ti como namorado. Não estava apaixonado por ti. Mas a verdade é que passava os dias contigo no pensamento, relembrando os momentos que já tínhamos vivido juntos. Recordava-me das nossas conversas, tão filosóficas e profundas. Cada vez que estávamos um com o outro era uma alegria. Sentia-me feliz.

Tu ficaste muito emocionado com o que eu dizia. Ficaste corado e muito pela primeira vez! Achei a tua timidez tão encantadora quanto tudo o resto em ti. Levantaste-te, muito surpreso com tudo o que eu dizia e aproximaste-te de mim. Por alguns segundos, pensei que me ias beijar para eu me calar, porque eu estava a sentir-me uma verdadeira "pita com 15 anos", a tremer por todo o lado e já a dizer coisas sem nexo. Tu sorriste e olhaste-me nos olhos. Suspiraste, voltaste a sentar-te e depois recomeçamos a conversar, comigo a pedir desculpas pelo "episódio". Abraçaste-me e disseste que eu estava certo. Tu sentias o mesmo.

Passámos o resto da tarde nos jardins do Palácio, a passear e a conversar. Aquele súbito desabafo meu desbloqueou um novo nível no nosso relacionamento. A dada altura, sentamos-nos a observar um grupo de mulheres que iriam participar num casamento. Estavam ali, naquele jardim onde nós estávamos, a "treinar" com uma fotógrafa, para tirarem fotografias no dia especial de uma delas. Estiveram lá que tempos. Nós, a um canto, observávamos a cena, divertidos. A dada altura tu recostaste-te. Puxaste-me para ti, ficando eu com a cabeça sobre o teu peito e tu a fazeres-me festinhas nos cabelos. Peguei numa das tuas mãos e dei-lhe beijinhos, enquanto assistíamos aquele espectáculo. Estávamos em paz, completamente alheados do resto.

Não queria pensar em mais nada. Momentos como aquele eram maravilhosos. Era a primeira vez em muito tempo que eu estava no papel de protegido, não de protector. Embora adore proteger quem amo, gosto igualmente de me sentir assim, protegido. Contigo aliás, foi sempre assim. Tu és mais alto e mais forte do que eu. Momentos como esse haveriam de repetir-se.

Um dia, fomos sair, uma vez mais, a deambular pelo Porto . Recordo-me particularmente bem desse dia porque, pouco depois de eu chegar à tua beira, me perguntaste se sabia que dia era.

- "Aqui em Portugal, logo à noite, celebra-se o Santo António em Lisboa. Mas presumo que não foi esse o motivo que te levou a perguntares isso. Por isso não sei, não sei que dia é. - respondi, sorrindo.

- "Hoje é dia dos namorados lá no Brasil..." - respondeste tu, corando e sorrindo para mim.

Eu abri e fechei a boca, sem saber o que dizer. Sorri também, bastante feliz. Demos um longo passeio a pé, à beira rio, até à Foz. Todo o passeio foi recheado de conversa, risos e alguma cumplicidade. Houve momentos em que havia pessoas que abrandavam o passo só para escutarem o que conversávamos. Não as posso censurar, já que as nossas conversas eram sempre bem interessantes!

A tarde estava quase no fim quando nos sentámos à beira-rio. Como ambos escrevemos histórias e contos, partilhaste comigo uma história que ias lavar a concurso, pedindo a minha opinião. Escutei-a com interesse. Depois de a ouvir, dei-te a minha opinião e fiz alguns reparos. Não queria fazer-te desanimar, mas percebi que havia alguns pontos que devias trabalhar. Nada demais, mas o suficiente para atrapalhar no enredo e consequentemente, a atrapalhar-te no resultado do concurso.

Ficaste admirado como estivera tão atento ao que estavas a ler. Afinal, apesar de existirem umas 7 personagens, eu podia explicar a trama toda, sabendo os momentos em que as acções aconteciam e até os locais. Agradeceste a ajuda e perguntaste-me se me podias ler outros textos em que estavas a trabalhar. Aceitei e começaste a ler-me mais 2 histórias.

A dada altura, como começou a ficar o tempo nublado, a ameaçar chover, decidimos regressar. já e tinhas lido a segunda história e eu fiquei surpreendido. Havia muito de familiar nesse conto, que ainda estavas a começar, tendo lido dois capítulos. Foi, porém, com a 3ª história que tu me cativaste.

A 3ª história era sobre um rapaz que ia suicidar-se e começava com ele a escrever uma carta. Deixava uma carta de despedida à mãe, ao pai, ao irmão e a alguns amigos especiais. Tocou-me bastante o relato e a forma como ele se despedia. Tendo em conta que eu já me tentei suicidar, aquilo mexeu imenso comigo. Eu também partilhava a opinião do personagem. Ele fazia aquilo para atenuar a dor dos restantes personagens e emocionei-me bastante com a parte onde ele escrevia ao irmão. Lembrei-me logo do meu falecido irmão e tu percebeste. Abraçaste-me e pediste-me desculpas.

Eu abanei com a cabeça. Não precisavas de pedir desculpas. O texto estava excelente e fiquei muito interessado em ler a continuação! Como ainda não tinhas escrito mais, fomos lanchar, embora fosse já hora de jantar. Acabamos por nos sentar no café de um supermercado, a trocar ideias para a tua história e a comermos uma mousse de chocolate juntos. Partilhei contigo as ideias que tinha para as histórias que se seguem a "Sombras da Luz". Achaste-as muito interessantes e como eu confessasse que estava com receio de não ser bem sucedido a escrever a história "Palavras Cruzadas, Destinos Cruzados", tu ofereceste-te logo para me emprestar um livro que seguia um esquema literário no género que pretendo para essa história, com o qual poderia compreender como se escreve assim.

Ficamos ali durante muito tempo. Lá fora estava a cair chuva miudinha. Depois de discutirmos mais um bocado sobre a tua história, decidimos sair dali e irmos embora. ainda estávamos longe e tu tinhas exame na faculdade no dia seguinte. No caminho de regresso a casa, ainda paramos de vez em quando. O tempo de chuva miudinha deixou-me atrapalhado para respirar, quando estávamos a subir um caminho bastante a pique. Como eu ficasse pior, insististe para nos sentarmos a conversar num sítio mais abrigado. Como me perguntaste sobre o que me levou a tentar o suicídio, eu contei-te. Aquele local era bom para confidências. Abri o meu coração. Tu escutaste tudo, emocionado. Quando terminei, estavas com os olhos brilhantes, a lutar para não chorares. Por diversas vezes pegaste nas minhas mãos e deste-me beijinhos. Quando terminei, abraçaste-me, aconchegando-me ao teu peito e sussurraste:

- Tu és a pessoa mais forte que eu conheço... Não merecias tudo isso. Não merecias mesmo!

Pela primeira em muito tempo eu sentia-me compreendido. Mais do que isso, eu sentia-me estimado. Com a cabeça recostada no teu peito e tu a dares-me miminhos, sentia-me amado. Passaram pessoas por nós, mas nenhum de nos se importou com isso. Sorrindo triste, olhaste-me nos olhos. Eu conhecia já bem aquele olhar. Sabia o que vinha aí, já que o sentia no meu coração.

Eu tinha consciência de tudo o que me dizias. Sabia que um dia tudo terminaria e que terias de regressar a casa... Sabia que não me querias magoar. Mas também sabia que queria viver aqueles momentos contigo. Não me importava de quanto tempo tínhamos para vivê-los. O importante era vivê-los o melhor que pudéssemos.

Já estava a ficar um pouco tarde, pelo que decidimos ir embora. Acompanhaste-me ao metro e demos as mãos por várias vezes em público, sorrindo um para o outro. Tu, que és mais reservado que eu, no que demonstra a mostrar sentimentos publicamente, começavas a perder a vergonha de o fazer. Pelo caminho ainda paramos numa feira, onde quiseste tentar a sorte num daqueles jogos de tiro ao alvo, para poderes ganhar um peluche para mim. Awwwww, achei esse gesto tão fofo e romântico da tua parte! Que bela forma de terminarmos o nosso dia dos namorados! Não conseguiste ganhar e ficaste triste. Mas eu disse que o importante era o gesto, que tinha sido um dos melhores dia dos namorados que tinha passado na vida. E tu disseste que aquele tinha sido o melhor! Sem stress, sem pressões, tudo a acontecer muito naturalmente.

Algum tempo depois ocorreu o atentado em Orlando, nos Estados Unidos. Ficaste muito chocado com a situação, pois o teu irmão está naquele país. A mim também me perturbou, porque está lá um dos meus melhores amigos. Dias mais tarde houve uma vigília no Porto. Nós os dois fomos. Era a primeira vez que ambos participávamos num evento destes. Apesar de ter estado pouca gente, comparado com outros eventos, tu foste o primeiro a falar, quando a organização deu a palavra a quem lá estava. Deste o teu testemunho e emocionaste quem te escutou. Deste-me coragem para falar também. Uma rapariga, que viemos a saber entretanto era jornalista do Público, veio ter connosco, a pedir autorização para transcrever algumas das coisas que tínhamos dito para o jornal. Surpresos, aceitamos. Poda ser que ajudasse outras pessoas, o nosso testemunho.

Depois de irmos embora, comentaste o que eu havia dito. Ficaste emocionado com a minha "saída do armário", feita assim publicamente. Eu repliquei que tinhas sido tu a dar-me essa coragem e força.

Já durante este mês participamos os dois na Macha de Orgulho da cidade do Porto. Era a tua estreia em marchas de orgulho e diga-se de passagem, a minha também! [Nunca tinha ido à Marcha de Orgulho do Porto, fui o ano passado à Marcha de Braga, pela primeira vez]. Gostei muito! A marcha estava repleta de gente bonita, interessante, cartazes que deixavam a pensar, música boa e muita cor! Foi uma grande marcha e de acordo com a organização, a maior marcha de sempre do Porto, desde que começaram a fazer!

Depois da marcha foram poucas as vezes que estivemos juntos. Ainda tinhas exames para fazer, havia compromissos que não podias adiar e começavas a ter de preparar tudo para regressares a Barcelona, antes da viagem definitiva de regresso para casa. Uma tarde, vieste cá a casa. Era a primeira vez que cá vinhas, pois querias conhecer a zona onde vivo. Depois do passeio viemos cá para casa e fomos para o meu quarto. A dada altura estávamos a ver um filme quando... fizemos amor!

Hummmm... Foi tão bom! Tão especial! Fizemos coisas que eu nunca tinha experimentado na vida e que são muito agradáveis! *blushes*

Estivemos horas ali, esquecendo tudo o resto. As tristezas, a melancolia que nos assolava porque estavas quase a partir, os medos, os receios, esquecemos tudo. Naquele momento, só importava tu e eu...  

Mal sabia eu que aquele fatídico dia seria o último em que estaríamos juntos...

Partiste para Barcelona sem te despedires, dias depois. Fiquei mesmo triste com isso. Ires embora sem te despedires... Embora compreendesse os motivos, aceitar era mais complicado. Porém, reservaste-me uma surpresa. Esta semana estivemos juntos. Vieste buscar as coisas que faltavam para a tua partida definitiva, de regresso a outro país, onde resides actualmente.

Passamos grande parte do tempo a falar de Pokémon GO, de como imaginas que será o teu regresso, dos receios e medos que terás de enfrentar sozinho. Eu sei que vais conseguir ultrapassá-los. És muito forte. Despedirmo-nos foi difícil. Tu controlaste-te o mais que pudeste para não chorares e tenho que te agradecer por isso. Eu treinei em casa, para que naquele momento não me descontrolasse a chorar, porque sabia que seria muito mais custoso para ambos. Mas quando te vi, de olhos muito brilhantes, a desviar o olhar, mas comigo recostado a ti, eu tive de me esforçar para não chorar. Tiramos uma selfie - a nossa última por agora - [e eu que nem sou de tirar fotos, muito menos de tirar selfies, contigo ainda tirei uma meia-dúzia de selfies, ahahah!]. Demos um longo e apertado abraço. Agradeço-te cada momento que passamos juntos. Foram dias maravilhosos.

Eu estarei sempre à distância de uma chamada, de um monitor, de uma mensagem.

Obrigado por tudo.

Um beijo e um forte abraço,

Sphinx

4 comentários:

  1. Os Bilhetes pela vueling são baratos, quando comprados com antecedência :)

    Quem quer bolota, trepa

    Grande abraço amigo

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    Respostas
    1. Na Ryanair também acontece isso! Aliás, a minha próxima viagem de avião deve ser a Lisboa, ao jantar de bloggers! ;)

      Sabes Francisco, aquilo que tornou este relacionamento especial foi o facto de ter um "prazo de validade". Ambos sabíamos disso desde o princípio. Tínhamos essa consciência. Foi bom enquanto durou. ;)

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  2. O que eu ri com o comentário do Francisco! (risos)

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