22/04/2016

Sphinx Talks! #1.5

Hoje trago até vocês um convidado muito especial! Ele é um rapaz bastante inteligente, gosta de debater sobre política e é um dos maiores coleccionadores o maior coleccionador de merchandising de Sailor Moon de Portugal! Convosco, Tito Teixeira!

O que é que já fizeste em Teatro?

Só fiz Teatro Amador. Primeiro, tive uma disciplina no Ensino Secundário, que era Oficina de Expressão Dramática, uma disciplina que se calhar alguns dos leitores também já tiveram ou estão a ter, sendo este o meu primeiro contacto com Teatro, depois de participações em teatros infantis na escola.

Isso quer dizer que então, o teu percurso no Teatro começou bem cedo…

Bem, eu participava em pequenos teatrinhos, como penso que a maioria das crianças faz na escola. Era uma coisa de que eu gostava, achava piada. Depois disso, tive então a Oficina de Expressão Dramática, nos 3 anos do Secundário. Como já tinha idade para compreender melhor as coisas, a verdade é que gostei bastante mais! Depois disso, participei num grupo de Teatro na Faculdade. No meu 2º ano da Faculdade, achei que seria engraçado participar num workshop, que um dos dois grupos de Teatro da minha faculdade proporcionava e só depois é que me apercebi de que havia a possibilidade de ficar no grupo de Teatro, com aquele workshop, sendo que este workshop era aberto a toda a gente, mas só algumas pessoas continuariam depois, já no grupo. Eu acabei por ser escolhido pelo meu encenador, pelo encenador do grupo e fiquei lá quase 5 anos.

Qual foi a peça que mais gostaste de interpretar?

É uma boa pergunta! (risos) A que eu gostei mais de interpretar foi a última que fiz, que foi uma adaptação de peça clássica grega, "Antígona". Eu representei uma das personagens, só tinha uma cena.

Tito, na peça "Antígona"

Então não tinhas muita coisa para decorar... (risos)

Não tinha muita coisa para decorar, mas a nível de densidade psicológica a personagem era muito mais interessante de se fazer e tive pena que não houvesse oportunidade de fazer mais cenas, uma vez que o tempo era limitado. A peça tinha cerca de hora e meia e gostava mesmo de ter tido mais cenas com aquela personagem. Eu gostei muito, afeiçoei-me muito à personagem e orgulhei-me bastante de ter interpretado aquele papel. Foi o papel que mais gostei de fazer. A peça que para mim foi a mais desafiadora foi a minha segunda peça de Teatro, dentro desse grupo, em que nesta já fiz o papel principal.

E como é que se chamava a personagem principal?

Gabriel. Foi uma peça que foi escrita e encenada pelo meu encenador nos anos 90 e agora reescrito. Ele fez esta nova adaptação em 2009/2010 e na altura acabei por ser eu a ficar com o papel. A peça chama-se "Os Amigos de Gabriel" e retrata um grupo de teatro amador universitário, ou seja, nós próprios! (risos) Eu fazia o papel de encenador de um grupo de jovens que recorrem ao teatro amador para se esquecerem que talvez, quando acabarem o que Bolonha lhes impingiu, irão parar ao tal desemprego de que todos falam, mas ninguém quer saber. Esta peça para mim foi a mais desafiadora.


Consideras esta peça a mais desafiadora, porquê? Qual foi para ti o maior desafio que esse papel te trouxe?    

Eram muitas cenas. Lembro-me que eram muitas cenas. Eu sofria muito por antecipação, aliás eu sofro muito por antecipação! (risos) Eu sentia o peso da responsabilidade, o peso de eu ser o "Gabriel", d' Os Amigos de Gabriel. Logo aí, eu dava-me conta de um peso tal, que eu não me sentia confortável. Para piorar a situação, tinha as minhas próprias expectativas, e as que eu imaginava que os outros criavam de mim. Portanto, foi-me difícil. Depois, tinha aquelas situações enquanto estávamos a ensaiar, em que o nosso encenador dizia-nos sempre coisas que tínhamos de melhorar, outras que tínhamos de fazer melhor, outras que tínhamos de fazer "pior"! (risos) Eu notava que era sempre mais "cascado" por ele e isso às vezes deitava-me um bocado abaixo a autoestima, porque eu não tinha a certeza se ele me estava a "cascar" porque queria ainda melhor, porque sabia que eu poderia dar mais ao papel ou se pelo contrário, se me estava a "cascar" porque eu não estava a chegar lá. Eu fiquei sempre com essas dúvidas! (risos) Há bocado não mencionei, mas a nível de representação, eu também já fiz Figuração, participei nos "Morangos Com Açúcar" na temporada 2008/1009. Também fiz há 2 anos atrás, um anúncio para a televisão, neste caso para a RTP e a Antena 3.

Pensas vir a ingressar numa carreia como actor ou isso nunca te passou pela cabeça?  

Olha, para te ser sincero, já me passou muitas vezes pela cabeça! (risos) Mas acho que é daquelas coisas em que nós pensamos e depois não nos mexemos, não lutamos para tornar realidade, por diversos motivos. Em primeiro lugar, o motivo que mais contribui para que eu não pense nisso como uma carreira de futuro é a eterna questão do estado do nosso país. Aqui não há trabalho para nada, não há saídas profissionais para nada. Há alguns anos atrás, dizia-se muito que não havia saída para se ser Professor. Em outros tempos idos, dizia-se que não havia saída para ser Actor, nem para Artes, nem para Música. Agora, actualmente, já não há saídas não só nas Ciências Sociais, mas também nas Ciências Exactas. Infelizmente, já existem Biólogos, Geólogos e até Arqueólogos que não conseguem encontrar trabalho!

Basicamente, ninguém consegue encontrar trabalho, a não ser os "corruptos"! (risos)

Exacto! (risos) Pelo menos hoje existe uma coisa boa, no meio desta crise. Agora já não existem áreas discriminadas. Já não há tanta discriminação de áreas, por não se conseguir encontrar trabalho. Agora trata-se de um problema geral, não se encontra trabalho em quase lado nenhum. Quanto a mim, ingressar numa carreira como Actor é algo que sempre pensei, com muito carinho, mas foi uma ideia que nunca partilhe com muitas pessoas, porque eu não sabia se ia estar à altura do desafio. Gostar de Teatro é uma coisa. Ter estofo, arcaboiço para ser actor, ou mesmo para ingressar num curso de Teatro, é outra. E verdade seja dita...eu não sei se o tenho. Não sei se estou disposto a nível emocional a dar tanto de mim e depois aquilo sair-me furado. Não me preocupo com a saída profissional, porque aí eu já estou à espera de não encontrar muita coisa. Mas eu tenho medo de eu próprio não ter mais para dar do que aquilo que já dei...

Ou seja, tens medo de já teres atingido o teu limite.

Sim, atingir o meu limite! Foi um bocadinho aquilo que senti, embora isto não seja uma boa comparação, mas isso esteve muito próximo de acontecer enquanto fazia "Os Amigos de Gabriel". Houve uma altura em que eu senti que se calhar, já não conseguia era dar mais. não sei se foi por eu esta cansado, se foi por causa de estar em baixo, se do stress... A verdade é que não sabia o que se passava mas uma voz dentro de mim dizia que se calhar, eu já não conseguia dar mais que aquilo.

Tens o sonho de participar em alguma peça? Fazer algum papel em particular? Se sim, qual?

Nunca pensei nisso. Nunca me permiti pensar nisso, melhor dizendo! (risos) Eu funciono muito por auto-censura! (risos)

És muito autocrítico.

Eu já desde pequeno que, como forma de protecção de mim próprio, antes dos outros me censurarem, antes dos outros me quererem "cortar as pernas", passo a expressão, que eu próprio me censurava, para não me chatearem. Desta forma, eu já não sofria da surpresa e já estava preparado, já contava com o pior. Nunca pensei, honestamente e com alguma seriedade, em fazer uma peça em particular. Já me imaginei, isso sim, a estar num palco de Teatro, um pouco maior. Não foi uma sensação muito agradável, tenho que confessar! (risos) E isso acontece por causa dos meus nervos. Apesar de eu gostar de  Teatro, de ter gostado de representar, a sensação de imaginar-me a estar num Teatro grande, com um público diverso, que não conheço, por um lado é interessante mas por outro é intimidador. quando imagino isso, sinto-me inseguro e nervoso! Por outro lado, já me imaginei a trabalhar com câmaras, em cinema ou televisão. Nestes casos, iria sentir-me muito mais confortável, porque não iria ter o público tão ao meu lado...

Como agora! (risos)

Como agora! (risos) Como actor de Teatro amado, tu tens o público sempre ao teu lado! E aí o desafio é muito maior. Quer dizer, eu imagino que seja, em comparação com a televisão por exemplo, em que fiz a figuração dos "Morangos Com Açúcar" e o anúncio. Termos o público ali, muito próximo, a avaliar-nos constantemente, é um desafio muito maior a nível de contacto. Para uma pessoa que seja tímida, que não se sinta confortável rodeada de muitas pessoas à beira, eu presumo que em comparação com uma equipa de produção de uma série ou filme, é muito diferente, certo? E ainda existe o facto da projecção depois ser muito maior quando se trabalha em televisão ou no cinema.

Tu já tiveste aulas com o Marcantonio del Carlo. Como foi para ti essa experiência?

Ele foi o meu encenador. O encenador deste grupo de Teatro onde participei, o ARTEC, que é um grupo de Teatro Amador que já existe desde 1993/1994, na Universidade de Lisboa, na Faculdade de Letras. O Marco foi o fundador deste grupo. Quando eu vi que ia ser feito um workshop na minha faculdade, vi que era com ele e achei piada por ser dado por ele. Imaginei que fosse um desafio interessante e não me enganei! (risos) Eu ia para o workshop, pagava um valor por mês e pronto, fazia lá o que ele pedia, bem ou mal, lá ia fazendo...! (risos) Este workshop decorria aos fins de semana e eu estava a precisar na altura de uma distracção como aquelas, veio mesmo a calhar. Meti-me naquilo e achei imensa piada. Trabalhar com ele, ser aluno dele... Ele é uma pessoa bastante simples, portanto não houve para mim aquele sensação de que ia trabalha com uma pessoa famosa, uma celebridade que até já fez Cinema, Teatro e Televisão! (risos) eu conhecia-o de nome de artigos que ia lendo na Internet, uma vez que sei que o nome dele é conhecido, principalmente no meio teatral. Eu não levava grandes expectativas por ir trabalhar com alguém conhecido como ele, até porque sabia que ia estar num ambiente completamente diferente daquele em que ele está quando está a trabalhar como actor. Ele é um homem bastante descontraído. É muito rígido e muito exigente - o que não é de si mau, certo? Quando nos estava a dirigir ele era muito rígido e queria sempre mais, mas depois, deixava-nos completamente à vontade, em tudo, porque ele próprio também queria era estar mais à vontade e não estava muito preocupado com o resto. Ele anda sempre com um boné e uns óculos escuros. Mesmo quando saía connosco à rua, quando íamos a algum sítio, ele ia assim, penso eu, para não ser reconhecido. (risos)

Tu alguma vez te deparaste com bloqueios criativos?

Não, porque eu nunca precisei como actor de ter que improvisar. Isto se estavas a falar de representação...

Sim, sim! Mas também a outros níveis...! (risos)

Ah, não, eu sempre fui bem dirigido! (risos) Quando eu me sentia cansado ou meio bloqueado pedia para parar um bocado, o que não era nada fácil para mim, admitir que precisava de parar um bocado... Isso aconteceu-me uma vez em "Os Amigos de Gabriel" e senti-me mesmo muito mal, porque depois fiquei a matutar naquilo...

E consideravas isso uma fraqueza tua...

Sim, sim! Todos os outros estavam numa boa ou descontraídos e só eu é que pedi, eu é que não conseguia...

Bom, tu também tinhas o papel de maior responsabilidade, por isso é compreensível...

Todos tínhamos. Por ser a personagem principal, não tinha necessariamente muito mais cenas que os outros, mas eu próprio é que me colocava o "filtro" de sentir-me mais responsável.

Tu nasceste em Lisboa mas actualmente vives em Braga. Foi fácil adaptares-te a um "novo mundo"?

Não! De todo! Eu achava que iria ser mais fácil. O motivo que me fez sair de Lisboa e vir para Braga era algo que me era familiar, confortável. Era algo que eu gostava e pelo qual eu esperei e ansiei, portanto desse ponto de vista, não iria ser difícil. Nos primeiros tempos, foi fácil estar cá, porque era como se estivesse de férias.

Sendo assim... Qual foi o motivo pelo qual te mudaste?

Para já, a nível de cidade. Para mim, Braga é uma cidade mas homogénea. A nível de pessoas, a nível de espaços, tanto urbanísticos como sociais, cafés, etc. é muito mais homogénea que Lisboa! Essa foi das minhas primeiras dificuldades que encontrei aqui! Tu quereres sair deste ambiente, que é um ambiente simpático, bom, limpo, asseado, etc... Tipo, está tudo bem com este ambiente, mas apetecia-me sair para outros ambientes, diferentes deste e não conseguia. Em Lisboa, a cidade é muito maior, mas também é muito mais diversa, portanto, eu podia ir para outros locais. Em Braga, sinceramente, senti-me como se estivesse num bairro de Lisboa, muito grande! (risos) Aliás, essa foi a primeira constatação e comparação que fiz quando me mudei para cá. Nessa altura, comecei a ficar descontente e um bocado triste por estar aqui. A segunda grande dificuldade, essa, só me apercebi há cerca de seis meses! A falta de rio! Eu estava habituado a viver numa cidade onde se me apetecesse, ia ver o rio. Não que durante o tempo em que vivi em Lisboa eu passasse a vida a ir para o Rio Tejo. Mas, eu sabia onde estava o rio. Eu sabia que o centro da cidade estava ao lado do rio. Eu por vezes até ouvia o rio, ao longe. Via a Ponte 25 de Abril, a Ponte Vasco da Gama, portanto, qualquer coisa, se me apetecesse passear, se me apetecesse sair, estando sozinho ou com amigos, eu ia para o rio. Eu ia para a zona ribeirinha, ia para o Terreiro do Paço. Ia para a zona da Expo. E tinha o rio, ali. Aqui, só agora, há bem pouco tempo, é que me apercebi da imensa falta que sinto de saber para que lado está o rio! (risos) Mesmo vendo os mapas da cidade de Braga, se comparar com os de Lisboa, que estão espalhados pelas cidades, em Lisboa é muito fácil de veres para que lado fica o rio. No caso de Lisboa, tens aquela "barriga" que mostra onde está a Baixa, alfama, etc. é muito fácil de identificar. Já no mapa da cidade de Braga, eu olho para lá e o rio é simplesmente um tentáculo (risos), com pequenas "perninhas" em várias direcções. Eu olhava para o mapa e não percebia nada. Eu preciso de um ponto geológico de referência que me fizesse perceber. Aqui em Braga, nem uma elevação... Tenho o Rio Este mas é um rio muito pequeno e que atravessa a cidade, mas é impossível compará-lo com os rios a que estou habituado. Mesmo a nível de altitude, podia haver aqui uma montanha muito grande, que sobressaísse para algum lado. Se houvesse, dessa forma eu já conseguiria, provavelmente, a nível geológico, orientar-me depois. Mas pronto, aqui é tudo igual. A minha terceira dificuldade foi a nível social. Eu sinto alguma dificuldade em sociabilizar, em me "enturmar" com as pessoas. Saí de Lisboa numa altura em que estava com uma vida social se calhar em demasia para mim! (risos) Demasiada vida social para o meu bem-estar. Adoro todas as pessoas com quem me dava. Adorei toda a experiência dos meus 2 últimos anos em Lisboa, a nível social. Foram os melhores anos da minha vida nesse campo mas senti que estava a ficar esgotado. Tinha alguns amigos e pessoas de diferentes áreas que queriam estar comigo e eu queria estar com eles mas por vezes eu sentia que eu queria era ficar sozinho, em casa a descansar, sem fazer nada. outras ocasiões eu sentia-me mal por estar em casa sem fazer nada, quando na verdade queria estar com algumas pessoas. Eu participei na Associação de Estudantes da minha faculdade. Conhecia a faculdade como ninguém. Passava lá imenso tempo, conhecia professores, funcionários, alunos... Enfim, conhecia imensa gente e foi uma altura de muito movimento, talvez até movimento em demasia! (risos) Depois acabei por vir para Braga, onde eu não conhecia quase ninguém e as pessoas que eu conhecia eram através de um amigo meu, um amigo com quem eu morava. Foi bastante difícil, porque eu coloquei-me de parte, coloquei-me na sombra. Por outro lado, foi complicado a nível de divergências de opiniões, divergências ideológicas, divergências na forma como se olha o mundo à nossa volta. Isso também foi um bocado difícil de gerir, para mim.

Tendo em conta que tu já cá estás à uns 3 anos, qual é que é melhor: Norte ou Sul? (risos)
       
O Sul para mim há-de ser sempre a minha casa. As minhas primeiras memórias foram lá. Lisboa é para mim, a minha cidade. As escolas onde eu estive, os meus amigos... Os meus amigos são quase família. Para mim está tudo no Sul, está tudo em Lisboa. O Algarve também é indubitavelmente importante para mim, uma vez que criei lá algumas das minhas primeiras memórias de criança. Os meus pais passaram muito tempo antes de eu nascer e mesmo nos meus primeiros anos de vida, eu e as minhas irmãs passávamos muito tempo no Algarve. Ficávamos lá um mês, na altura em que havia um mês de férias para quem trabalhava o ano inteiro.

Bons tempos! (risos)

Bons tempos! (risos) Era tempo para descansar e recuperar devidamente as energias e o cansaço acumulado. Os meus pais tinham um mês de férias, seguido. Então nós íamos para o Algarve de armas e bagagens (risos) e era um mês excelente! Os meus primeiros anos de férias, foram passados no Algarve, donde guardo as melhores recordações das pessoas que lá estavam, etc. Por tudo isso, o Sul terá sempre um lugarzinho especial para mim no meu coração. No entanto, acho o Norte incomparavelmente mais acolhedor. A nível de paisagens, a Arquitectura, as cidades, tudo no Norte é muito mais bonito. Acho que aqui no Norte se vive uma qualidade de vida incomparavelmente melhor à que se tem em Lisboa. Cidades como Braga conseguem ter tudo o que precisamos. Acho as pessoas mais acolhedoras, mais calorosas e familiares, mas também não sei se isso se deve ao facto da minha família vir de Trás-os-Montes e desde o primeiro momento em que vim para o Norte, fiquei sempre com a ideia que estava a regressar às minhas "raízes". Também verdade seja dita que não vim para aqui de mãos a abanar. Vim para casa de um amigo, vim com o apoio dos meus pais, com o apoio de alguém que já se encontrava estabelecido aqui, que já cá tinha a família, portanto, a mudança tornou-se mais fácil. eu conhecia partes do Norte, de quando vinha cá nas férias, quando era criança. Mas por exemplo, eu não conhecia o Minho, só conheci quando me mudei para cá. Quanto a panorama social, ao nível de pessoal da nossa idade, tive muito boas experiências, mas também houve casos em que não foi bem assim. Em alguns casos as coisas aqui são muito diferentes de Lisboa, a nível de divergências. Por vezes é-me difícil lidar com as pessoas ou as pessoas lidarem comigo. Quanto ao nível de diferença ideológica, nunca tive esta experiência em Lisboa como tenho aqui no Norte. As pessoas são muito aguerridas! Apesar disso, o balanço é muito positivo!

Braga é conhecida por ser uma cidade muito conservadora. Concordas?
       
Que é conhecida por isso? Sim, concordo.

Achas que a mentalidade e o comportamento dos bracarenses tem mudado para melhor, no que diz respeito à comunidade LGBTI?

Bom, eu só cá estou há 3 anos, pelo que não tenho comparação possível. Antes de vir para cá, eu vinha cá só de visita e ainda por cima, um ano antes. Portanto, na realidade eu só conheço Braga há 4 anos. Antes disso eu só conhecia Trás-os-Montes! (risos)

Desde que estás cá, até agora, achas que mudou para melhor ou não?

Não te sei dizer. A minha visão é enviesada. Eu desde que vim para cá, iniciei muitos contactos, desde logo, com pessoas, a nível de questões LGBTI, que estão bastante à vontade consigo próprias. Pessoas que trabalham e participam socialmente nestas questões e nesse activismo. Por isso, a minha experiência é privilegiada desse ponto de vista. Não te posso falar a nível da sociedade bracarense.

Concordas com a adopção homoparental?

Sim, sem dúvida!

Crês que Portugal continua a ser um país muito preconceituoso?

Eu acho que a nível formal, a nível oficial e a nível de Leis, evoluímos bastante nos últimos anos. Como todas as evoluções que são feitas ao nível das grandes estruturas e de grandes instituições, elas não acompanham, muitas vezes, aquilo que se passa na base, na Sociedade. Eu acho que as mudanças que tivemos a nível dos direitos das Mulheres, a nível dos direitos LGBTI, foram notáveis, mas penso que a nível social, as coisas demoram sempre mais tempo. A isso chama-se em Sociologia e também em História de Tempo Curto e Tempo Longo. As instituições muitas vezes têm a facilidade de fazerem a mudança rapidamente ou não. Dentro de uma estrutura pode ser muito mais rápida e pode acontecer de um dia para outro, de um ano para o outro. Já a nível social, as coisas demoram sempre mais tempo. Eu acho que estamos a dar todos os passos certos para que efectivamente a opinião pública e a maior parte das pessoas vá no sentido de aceitar e de estar aberta à diversidade. Perceberem que existem mais para além daquilo que estavam habituadas a ver e conhecer. O que é bom nestes avanços através de legislações e alguns direitos é que se torna politicamente incorrecto falar mal dessas coisas. E essa é para mim uma das grandes diferenças e era com isso que eu te queria respondera esta questão. Há 10 anos atrás era perfeitamente normal uma pessoa dizer que achava que uma mulher não tinha nada que mandar no seu corpo, que quando estivesse grávida, tinha de ter o filho e ponto final, independentemente dos motivos. Achava-se perfeitamente normal que uma lésbica não tivesse o mesmo direito a constituir família que uma mulher heterossexual. Mais, as pessoas consideravam isso um desvio e que a pessoa em questão devia ter cuidado e devia ver um psiquiatra ou um psicólogo. Aconselhar-se, confessar-se, nem sei! (risos) Isso era normal. Não havia nenhum quadro legislativo, nenhum quadro judicial, não havia quase nada que te dissesse a nível formal, na Constituição. Nada que contradissesse essas pessoas e portanto, uma pessoa dizer isso era pensar diferente, pensar de forma inclusiva, era sair "fora da caixa". Hoje em dia isso reverteu-se completamente. Hoje em dia já não é politicamente correcto dizer-se isso. Porquê? Porque a nível legislativo, a nível de leis, a nível da Constituição e dos Direitos Europeus e Direitos Humanos, passou a ser exactamente o contrário. A ONU, Amnistia Internacional, tem feito os possíveis para incluir as diversidades de orientações sexuais, de identidade de género e direitos das Mulheres. Hoje em dia também é com alguma satisfação que vejo algumas pessoas mais conservadoras, que antes de dizerem que não concordam com isto, já dizem: "Eu sei que vou dizer algo que não é muito popular nos dias de hoje, mas eu não concordo com os gays ou as lésbicas puderem adoptar. Sei que não vou dizer algo politicamente correcto mas eu acho que a orientação sexual não heterossexual ou seja orientação sexual não normativa, é um desvio!" Este tipo de pessoas já admitem estar a pensar de forma minoritária. E para mim esse passo foi sem dúvida o mais importante. Passar a ser politicamente incorrecto ser preconceituoso e ser contra a diversidade.

Mas também existe e creio que aqui vais concordar comigo, que temos um outro lado, em que temos pessoas a escreverem comentários e eu falo do que leio por vezes nas redes sociais, pessoas que escrevem a dizer que têm de ser a favor das "causas", porque agora é "moda", porque é aquilo que toda a gente quer ouvir e se demonstrarem contra, "lhes vão cair em cima". 
 
Nesses casos, pontuais, serão pessoas que não se sentem confortáveis em pensar diferente da maioria. Eu acho que não há problema nenhum em pensar diferente da maioria.

Sim, mas o que está em causa aqui é um certo cinismo, de certa forma...

É assim. Uma pessoa que se sente desconfortável por não pensar igual aos outros, independentemente dos motivos, é algo que tem de trabalhar dentro de si mesma, Se essa pessoa se sente obrigada a pensar como a maioria, não tem de o fazer, obviamente. Mas também não tem que mentir. Podia ao menos ficar calada, não é? (risos) Quando eu não concordo com uma coisa que sei que é geral, que é do senso comum, sendo algo que me acontece inúmeras vezes a nível ideológico, eu só dou a minha opinião em espaços concretos, específicos e mais, onde tenha tempo para me poder justificar, se for caso disso. Não vou propriamente dizer num espaço púbico, como acabam por ser as redes sociais, isso. Posso ser tendencioso (risos) e dizer que se calhar, a nível de direitos humanos, essas pessoas sentem-se obrigadas a concordar com a maioria, porque se calhar a maioria tem razão! Vão ter de acabar por concordar ou simplesmente por se habituar, que há muitas mudanças no Mundo. Muitas delas são positivas e outras negativas. O Mundo nunca está parado e nem sempre vai evoluir para melhor. Os últimos anos são a prova disso. Contrariamente ao que se pensava há 15, 20 anos atrás, o Mundo não está destinado a ter uma evolução sempre positiva. Nós, neste momento, estamos numa fase de evolução claramente negativa, de regressão de direitos sociais. Apesar disso, e neste caso particular, acho que é uma mudança positiva.

Nós estamos a falar no fundo, de direitos fundamentais...

Exacto! Só em alguns epifenómenos, de alguns países, é que eu vejo este tipo de legislação a regredir, porque no geral eu acho difícil voltarmos a regredir tanto, como se estava antes. Se regredirmos, acho que vai ser momentâneo, como foi o caso do Divórcio, na Época do Estado Novo. O Divórcio foi permitido na 1ª República e depois voltou a ser proibido. Acho que situações destas serão sempre momentâneas. Quando este tipo de questões sociais evoluem, podem regredir perfeitamente, mas será sempre um epifenómeno.

Tu já trabalhaste na Rede Ex Aequo. Qual foi o feedback que obtiveste dessa experiência? 

A Rede Ex Aequo, para quem não conhece, é uma Associação de Jovens LGBTI, que existe há 12 anos, a nível nacional, vocacionada de jovens para jovens. eu fui voluntário da Associação desde 2007, ano em que entrei na Rede, para o Fórum da Associação, que na altura era a plataforma mais popular por parte das pessoas que conheciam/visitavam a Rede Ex Aequo. Era uma das principais portas de acesso e primeiro contacto que as pessoas tinham com a Associação. Na altura os fóruns eram muito mais populares do que o são hoje em dia, foi numa altura pré-Facebook! (risos) Até entrar para o Fórum, eu era apenas mais um rapaz que se achava único, no ambiente que me rodeava e durante muitos anos achei que iria ser naturalmente ostracizado e colocado de parte por causa da minha orientação sexual. Nesse aspecto, a Rede Ex Aequo teve um papel importantíssimo na minha vida. Por mais anos que viva, não conseguirei esquecer o papel ímpar que a Associação teve, em me fazer conhecer outras pessoas, iguais a mim, a nível de orientação sexual, conhecer pessoas com diferentes identidades de género. Foi igualmente importante, de uma forma pedagógica e não de uma forma sexual ou sexualizante, que é como infelizmente, tradicionalmente e historicamente, quando se abordar a temática da orientação sexual, a conversa vai sempre parar aos mesmos temas: a bares, a engates, etc. A Rede Ex Aequo foi das primeiras Associações de Jovens para Jovens que fez e teve um papel priviligiadamente pedagógico, de ajuda e de apoio, e não com o intuito sexual ou sexualizante. A Rede Ex Aequo teve ao longo destes 12 anos um papel muito importante a nível legislativo, sendo uma das associações que é ouvida, no Parlamento. Faz actualmente parte da CNJ (Conselho Nacional da Juventude). Eu tive várias funções dentro da rede, tendo oportunidade de ver pessoas que chegavam lá completamente acanhadas, com medo, com vergonha de serem descobertas, com receio de estarem a cometer um crime, a sentirem-se culpadas, com muitos preconceitos entranhados. Notava-se que as pessoas estavam a sofrer dilemas internos mas daí a 1 ano ou 2, as pessoas saíam de lá com a auto-estima restaurada, com uma rede de amigos! Entravam lá de uma maneira e saíam de lá completamente diferentes! Livres, a sentirem-se bem consigo próprias, notava-se que estavam muito mais confiantes. Eu acho que honestamente, nestas áreas há muito poucas oportunidades de se ver uma evolução tão fantástica, tão extraordinária. Eu tive a oportunidade de ser um dos Coordenadores Locais, neste caso no Porto. Também fui membro de grupos locais em Lisboa e para mim foi das melhores experiências que pude ter!

Qual é a tua opinião sobre o que o Aléxis Tsípras tentou fazer pela Grécia?

Bem, que grande mudança de tema! (risos) Eu não sei bem o que ele tentou fazer na Grécia. Contrariamente ao que muitas pessoas pensam ou pensavam, na altura em que o Aléxis Tsípras se candidatou, junto com o Partido SYRIZA, que este candidato era um extremista. e essa ideia é completamente descabida. quem acha isso não leu nem conhece o programa do SYRIZA, não sabe aquilo que eles queriam ou então desconhecem o significado do termo "extremista". Achei ridículo, quando vieram alguns comentadores e jornalistas falar na televisão que ele de um partido extremista e que devíamos ter cuidado com eles, caso fossem eleitos. Acho que a estratégia de medo, muito conhecida entre nós, que faz as pessoas não votarem em alguém, estava a ser utilizada. Ele dizia e queria alguma coisa diferente daquele que estava a ser feito na Grécia, Portugal e em Espanha. Com a estratégia de medo, o objectivo era fazer as pessoas continuarem a votar nos mesmos ou a não votarem. Para mim essa estratégia era clara e era feita por pessoas que queriam que as coisas continuassem na mesma. Agora é assim, eu acho que houve muitas pessoas, progressistas, de Esquerda ou de Centro-Esquerda que tiveram esperanças no SYRIZA e no Primeiro Ministro Grego, mas nos dias de hoje já perceberam que as suas expectativas e esperanças foram pelo cano abaixo. O SYRIZA dizia querer fazer as coisas de forma diferente. Isso deu alguma esperança às pessoas, porque as pessoas queriam ouvir algo de novo, de diferente do discurso normativo que nós temos ouvido nos últimos 5-6 anos, que é o discurso do "não há alternativa, temos de continuar a votar nos mesmos porque, é verdade que é mau, mas sem estes, as coisas podem ser piores" ou seja, sempre o discurso do medo, da austeridade, o discurso que não há alternativa a não ser regredir em direitos sociais, em qualidade de vida, aquele discurso de que não há alternativa a não ser sairmos do nosso círculo de conforto e procurar trabalho numa ilha qualquer, onde haja trabalho! (risos)

Tu tiveste esperança em relação ao SYRIZA?

Não, não tive. Nenhuma, desde o início. Gostava de ter tido, até porque tive a oportunidade de ler e ouvir algumas pessoas que eu respeito bastante e a opinião delas sobre o Primeiro Ministro e o SYRIZA era dúbia. Era dúbia porque segundo eles, ao lermos o programa do SYRIZA, víamos que não era um programa político que fizesse o devido corte com a austeridade, com as instituições europeias. não era um programa que iria permitir, efectivamente, os gregos saírem do buraco onde estavam a ser enterrados. O programa deles era um programa de um Partido Social Democrata dos anos 50 ou 60. Partido social Democrata não de nome, mas um Partido Social Democrata historicamente e politicamente europeu é um Partido de Centro-Esquerda, uma Social Democracia. Não devemos confundir com Centro-Direita ou Direita, que em Portugal é o Partido Social Democrata. O programa do SYRIZA aproxima-se mais de um programa de Centro-Esquerda dos anos 60, pós 2ª Guerra Mundial. Era um programa que defendia a intervenção do Estado na Economia, que defendia as funções sociais do Estado. No entanto, não defendia aquilo que é considerado serviço social, uma vez que este passava a ser considerado negócio passível de lucro e não só é passível de lucro, mas também refém de lucro, essa é que é a diferença. Portanto, ao fim ao cabo, seria um programa económico que nem sequer seria de Esquerda Social Democrata. Eles nunca mentiram a nível de discurso político, que queriam manter-se no Euro e com as instituições europeias do lado deles. Tudo isto podia ser visto inicialmente como uma estratégia de "nós estamos a tentar chegar a eles, à Europa, à Alemanha, enfim, aos credores e eles vão continuar a dizer-nos que não e nós aí não vamos ter alternativa a não ser "romper" com eles". Eu inicialmente pensei que fosse esta a estratégia deles, uma estratégia política, diplomática, para fazer ver às pessoas, porque, convém dizer, isto é política! Isto não é mentir, é estratégia. Entretanto, o jogo já está completamente ao avesso, do meu ponto de vista, porque eles afinal querem estar é a todo custo no euro e com o apoio das instituições europeias. Ora, eu acho que não se pode agradar a "gregos e a troianos!" (risos) O SYRIZA não pode agradar ao mesmo tempo a toda a gente e a continuar a alimentar o gigante negócio das Dívidas Públicas Europeias, que vivem dos juros que os credores cobram compulsivamente aos Estados, através dos nossos impostos, dos serviços que são privatizados, de todos os sectores estratégicos e que davam lucro ao Estado. Estes acabam privatizados para lhes darem todos os dividendos para pagar os juros dos capitais que foram falidos com a crise de 2007/2008. Não é a Grécia vs Alemanha, nem gregos contra portugueses. são Classes Credoras Versus as Outras Classes. Porque também é verdade que existem muitos gregos, da classe alta, que estão a ganhar muito com isto tudo e estão no mesmo barco, ao mesmo nível de interesses que outras instituições credoras, entre elas alemãs e francesas. Em relação ao SYRIZA, eles foram eleitos com um programa que não estavam a cumprir. Tiveram imensas manifestações. ao contrário de portugal e Espanha, estas manifestações eram de apoio ao governo, portanto os gregos não ficaram só pelas eleições e por votarem a favor do SYRIZA, mas também uma parte substancial dos gregos manifestou-se a favor do governo e contra as medidas de austeridade, contra o pagamento da dívida pública. Ainda assim o SYRIZA fez um referendo, para reforçar as medidas contra a Troika, as instituições europeias e o FMI. O referendo deu ainda mais poder e razão ao SYRIZA, embora estes tenham dito: "atenção que isto não é vinculativo, mesmo que vocês votem Não à Austeridade, isto não quer dizer que nós vamos sair daqui!" Com tudo isto, para mim já estava mais do que visto que tudo aquilo era um autêntico fracasso, um verdadeiro embuste, tanto o Aléxis Tsípras como o SYRIZA. já não existe Serviço Nacional de Saúde na Grécia. Há muitos médicos gregos que estão a dar os cuidados de saúde à parte dos hospitais e à revelia do SNS grego. Esta tragédia humanitária está a acontecer devido à necessidade de pagar os juros da Dívida Pública e ainda por cima, isto não se fica apenas pela Grécia, não é? Isto contamina toda a sociedade globalizada. Os fenómenos de contágio já existiam no início do século XX e até no século XIX, houve várias revoluções liberais, que foram fenómenos de contágio de vários países. Tudo começou nos Estados Unidos da América. Depois, avançou para a França e deu-se a Revolução Francesa, inspirada na Revolução Inglesa e depois passou por Portugal, Espanha, entre outros países. Hoje em dia estes contágios tem muito mais poder e são muito maiores, devido à Internet e à globalização. Aquilo que está a acontecer no SYRIZA acaba por ter repercussões noutras forças políticas. As pessoas não dizem claramente mas a verdade é esta: é preciso cortar com o Euro, cortar com a Troika, cortar com esta Dívida "Pública". Enquanto não existir uma força política que queira quebrar com tudo isto, não vai ser possível sair daquilo em que os gregos estão metidos, bem como nós, portugueses e os espanhóis. Vamos continuar a empobrecer e a morrer mais cedo. Hoje em dia morre-se mais cedo na Grécia do que se morria há 5 ou 10 anos atrás. E morre-se com doenças, algumas já erradicadas anteriormente, tudo causa da ausência do SNS. Estes fenómenos de contágio estão a fazer sofrer o "Podemos" em Espanha, uma vez que o SYRIZA não cumpriu com o que prometeu, não cortou com o grande capital europeu. O Podemos em Espanha tinha esperança de abarcar com o maior número de pessoas descontentes do Centro-Esquerda, do Centro e quiçá, do Centro-Direita. Quiseram embarcar um conjunto enorme e ideológico de pessoas, mas com o fracasso do SYRIZA na Grécia, os projectos deles podem ir pelo cano abaixo.

Achas que o Aléxis Tsípras, mesmo falhando no concretizar dos seus objectivos, acabou por provar aquilo que pretendia?

Como eu disse, eu não se o que ele pretendia. Ele fez o que quis, os gregos passaram-lhe vários cheques em branco. O SYRIZA fez o mesmo jogo que o PASOK, o partido de Centro-Esquerda, na Grécia Tradicional fazia, bem como o partido Nova Democracia, que era o Partido de Centro-Direita faz e irá sempre fazer, ideologicamente. Um partido de Centro-Direita ou Centro há-de sempre comungar com as ideias do resto da Europa e com as ideias do grande capital europeu. O SYRIZA está, neste momento, a fazer o mesmo, na prática.

Pensas que Portugal deveria ter optado por outro caminho ao invés destes 4 anos de austeridade?

Ahhh! Sem dúvida! (risos)

Que solução apresentarias, se fosses nomeado Primeiro-Ministro?

Para já, teria de apresentar as minhas ideias ao resto dos Ministros! (risos) Agora a sério, não te consigo dar uma resposta a isso. Não me consigo imaginar no papel de Primeiro-Ministro.

Mas devias! (risos)

Eu acho que as mudanças que trazem reais consequências para um país, para uma sociedade, não são feitas dentro de um escritório ou assembleia parlamentar. As mudanças têm de ser feitas por parte da sociedade civil. Não houve nenhum direito, historicamente conquistado, que não tenha sido conquistado por manifestações, com recurso à sociedade civil a organizar-se e rebeliar-se, muitas vezes, contra o próprio Estado e é preciso dizer isto, contra a Imprensa também. Só poderão haver melhorias em Portugal, Espanha, Grécia quando a sociedade civil se mobilizar. Seja em comissões de moradores, comissões de trabalhadores, seja remodelando os sindicatos que existem. As pessoas, tem de participar mais activamente nas próprias instituições que já existem. Pouco depois do 25 de Abril houve um constante esvaziamento de poderes das instituições locais e da própria participação das pessoas nas suas próprias comunidades. E isto fez com que as pessoas deixassem de se sentir interessadas em participar na sua própria comunidade, seja Assembleias de Bairros, Comissões de Moradores ou Sindicatos. Os centros de decisão vão subindo cada vez mais na escala institucional e chegas a 2015, com os poderes a ficarem nas mãos de uns sujeitos que são eleitos de 4 em 4 anos por 50% da população, porque os restantes 50% já nem votam hoje em dia. Eles decidem toda a nossa vida dentro das 4 paredes de um gabinete, como se estivéssemos novamente na Época Absolutista, no século XVIII, quando os destinos dos países eram decididos por uma determinada classe política e o resto da população estava completamente alheada das decisões políticas da sua comunidade. Estavam apenas habituadas a "pão e circo", que é como quem diz, a alguma comida e distracção. eu acho muito mau que se esvazie os organismos de base, pois é na base que se encontra a democracia. A democracia é justamente dar voz às pessoas e só consegues dar voz às pessoas se tiveres organismos próximos delas. Os sindicatos, por exemplo, não deviam estar só a defender quem tem um contrato de trabalho ou quem está empregado. os sindicatos deviam defender todos os desempregados, porque a base de um sindicato é justamente essa histórica, a de defender todas as pessoas que não têm trabalho. Assim sendo, se eu fosse Primeiro-Ministro, eu iria fazer os possíveis para voltar a dotar todos os organismos locais das suas prerrogativas, dos seus direitos, tal como havia há 30 anos. Assim, teriam muito mais direitos, muito mais voz, muito mais peso ou se quisermos chamar como se diz hoje, mais lobby. Eu não tenho medo dessa palavra, quando se trata de lobbies na base da população. Uma democracia é justamente isso! É dar voz a quem não a tem, por definição e dotar novamente a nossa democracia dos instrumentos de base que fazem com que as pessoas comuns se possam unir e organizar para decidirem aquilo que querem da vida!

Tens o meu voto se algum dia te candidatares a Primeiro-Ministro! (risos) Euro ou Escudo?

Neste momento, Escudo. Sem dúvida!

O que está errado na política portuguesa?

O que está errado na política portuguesa é não termos portugueses a participarem nela. É termos esvaziado nos últimos 30 anos os organismos locais de poderes, de importância, de relevância e terem feito as pessoas importarem-se cada vez menos com a política da sua freguesia, da sua câmara municipal, do seu local de trabalho. Também o facto de terem feito as pessoas acreditar que não valia a pena irem às Assembleias de Freguesia, de que não vale a pena estarem inscritos num sindicato, porque o sindicato não vai fazer nada, de que não vale a pena reclamar, de darem a sua opinião. As pessoas pensam que a política é só o Parlamento, mas para mim, política é tudo o que eu acabei de te dizer. É estar decidir as coisas. É veres a tua rua com lixo e ires à Câmara/Junta de Freguesia e perguntares "Porquê que não estão a recolher o lixo? O que é que se está a passar?" Isto é a essência da política e é isto que não está a acontecer em Portugal.

Na tua opinião, quem vai ganhar as eleições legislativas?

Não faço ideia! (risos) É possível que seja o Partido Socialista. Não acho que vá existir uma maioria absoluta e o PS ao ganhar, terá de fazer um acordo pós eleitoral com o CDS ou o PSD. É possível que em último caso, haja novamente um Bloco Central, ou seja, PS-CDS-PSD a governarem. Mas, lá está, também é perfeitamente possível que ganhe a coligação PSD/CDS. Não estou muito preocupado com quem vai ganhar, porque, muito francamente, não acho que exista muita diferença. Não há aliás, diferença alguma,para mim, entre o PS e o PSD, a nível económico, direitos laborais - que são os que dão dignidade à vida - e direito ao trabalho. Não há direito ao trabalho em Portugal. Não há direito a teres um trabalho e a poderes sobreviver e a teres dignidade na tua vida, com o salário que auferes. Depois do 25 de Abril, ganhos esse direito ao trabalho, mas com o passar do tempo, perdeu-se isso. Enquanto não houver nenhum partido que defenda claramente o direito ao trabalho e ao emprego e os recursos financeiros deixem de ser desviados para os juros da dívida pública e das parcerias público- privadas e passem a ser canalizados para arranjar trabalho para todos. Deve-se reduzir o horário de trabalho, sem reduzir o salário, coisa que já está a acontecer na Suécia, por exemplo. Isto pode ser uma enormidade para alguns, mas existem já países em que para se fazer frente ao desemprego e automatização dos trabalhos, reduz-se o horário de trabalho das pessoas, empregando mais e não reduzindo o salário. Assim temos mais pessoas a trabalhar, com o mesmo salário ou um pouco mais! As pessoas têm mais tempo livre e existe uma melhor qualidade de vida! Está comprovado cientificamente que, hoje em dia, cada um de nós é 6 vezes mais produtivo do que em 1960. Cada um de nós produz 6x mais riqueza para o país, de que os nossos avós! Portanto, não há motivo nenhum para que não haja pleno emprego hoje em dia, se os recursos financeiros deixarem de estar "alocados" a esta gestão de lucros privados, de juros de dívida pública. O PS teve algumas diferenças em relação aos partidos da coligação, a nível dos Direitos LGBTI e a nível do Referendo sobre a IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez), esta em 2007. Em questões sociais, especificas, o PS é melhor que os partidos da coligação. Mas a nível económico e é disso que estamos a falar, não há diferenças nenhumas entre todos os partidos. Para os LGBTI, para as Mulheres e para as pessoas mais pobres, a crise económica toca mais, do que nas restantes áreas.

Já que estamos a falar de eleições, quem achas que vence as eleições presidenciais?    

Ainda estão um bocadinho longe da agenda dos media. Ainda estamos no Verão e temos umas eleições legislativas pela frente. Não estou muito preocupado com as eleições presidenciais. Não pela natureza do cargo em si, porque eu acho que, ao contrário do que muitas pessoas afirmam sobre o cargo de Presidente da República não servir para nada, o cargo de Presidente, cultural e historicamente tem a sua relevância. Preferia que ganhasse um candidato que fosse de Esquerda, mas que não fosse daqueles que dizem ser de Esquerda sem o serem, no meu ponto de vista. (risos) Que defendesse realmente e tocasse com o dedo na ferida, fazendo de contrabalanço contra o governo. Este não é o típico papel de um Presidente da República na nossa República, fazer de voz contraditória ao governo. Não é o que se espera de um Presidente da República neste momento actual de crise económica, social e crise de regime em Portugal. Os nossos últimos governos passaram constantemente a perna ao Tribunal Constitucional, passaram constantemente a perna à nossa Constituição, portanto, neste momento, qualquer figura do nosso Estado que se insurja contra isto e que denuncie, independentemente da sua natureza política não ser a mais desejável de intervir e de falar contra o governo, qualquer dessas personalidades dessas é bem vinda e se for o Presidente da República, ainda melhor. Gostaria que fosse um Presidente que defendesse aquilo que ainda resta da Constituição de Abril!

Vamos agora aligeirar um bocadinho as coisas...! (risos) Tito, não podes sair de casa sem?

O meu telemóvel!

Se tu descobrisses uma ilha, que nome é que lhe darias?

Que nome? E isso é para dar uma resposta rápida? (incrédulo) Mas a ilha tinha habitantes?

Isso tu e que sabes! Fica ao teu critério! (risos)

Se a ilha tivesse habitantes, eu tentava falar com os habitantes  e perguntava que nome é que davam à ilha! (risos) e depois tentava traduzir aquilo de alguma maneira, na língua deles para uma língua mais internacional ou inglês, algo que fosse mais conhecido. Pensando melhor, eu pegava em alguma característica da ilha, seja geológica, seja meteorológica, seja do que fosse e tentava dar um nome à ilha baseado naquilo que a mais caracterizasse.

Afinal, os cupcakes são feitos para comer ou para tirar fotos?  

Tens umas perguntas engraçadas (risos)

É para quebrarmos assim um bocadinho o ritmo...

Os cupcakes... Acho que é um pouco das duas coisas.

És fã de cupcakes?

Não, não sou. Não sou porque eu não gosto muito de doces, de bolos secos. Portanto, cupcakes não é muito a minha "cena". Mas pronto, isto são perguntas de resposta rápida, portanto eu não vou já partir para a parte do porquê que a comida se está a transformar num produto para se tirar fotografias! (risos)

Se a ciência desvendou os mistérios do DNA, porquê que ainda ninguém desvendou a fórmula da Coca-Cola?

Não descobriram a fórmula da Coca-Cola? (incrédulo) Eu achava que a fórmula da Coca Cola já tinha sido descoberta há muito tempo, que era espalhar a cultura norte-americana por todo o Mundo! (risos)

Quem é o teu artista favorito?

Artista? Há tantas artes!

Podes dizer um artista musical.

Musical? Ainda por cima? Para mim a Arte, não tem muito sentido se não for partilhada. Por isso para mim ela só faz sentido quando é partilhada, quando tem um contexto social ou quando nós todos queremos dar uma interpretação a algo. Isso para mim, é o que é mais bonito na Arte. A nível de música, vou ter que te dizer que para mim a música é tão ou mais bonita ou para mim é tão mais artística quanto mais ela tiver uma mensagem. ela passar uma mensagem  para as pessoas, para a comunidade. E tiver uma visão. Nisso acho que a música interventiva, música de intervenção, é muito bonita, porque, quer nós concordemos ou não, espelha um ideal de sociedade, porque a música move as pessoas à sua volta, porque nos faz cantar, porque nos faz ficar alegres, porque nos faz dançar, porque nos faz sonhar. eu acho que a música de intervenção é, dentro da música, das formas mais bonitas de Arte e assim sendo, vou-te dizer um artista. Não sei se é o meu favorito, porque não o oiço muito, mas é um artista muito respeitável e que devia ser muito mais valorizado. É o Zeca Afonso, como música de intervenção. Se me perguntares de artistas por exemplo de outras áreas, de actores, etc, por exemplo...

Sim, já agora! (risos) Tu fala, o palco é teu! (risos)
  
Tenho uma actriz que já não actriz, há muitos anos que é empresária. ela tornou-se uma actriz "fetiche" para mim (risos) norte-americana, que se chama Victoria Principal. Por razões absolutamente não racionais, por razões emocionais, simplesmente, tornou-se uma actriz e uma mulher que eu adoro! Eu tento seguir um pouco aquilo que ela faz, que para o público é muito pouco, uma vez que ela retirou-se de cena nos anos 80. Ela nunca gostou da fama, aliás. Eu conhecia-a numa grande série norte-americana que eu gosto muito. Grande série por ser popular, não estou a dar um critério qualitativo! (risos) Estou a dizer que é grande, porque foi muito popular, espalhou-se por imensos países do Mundo e espalhou muito da cultura norte-americana pelo mundo. Foi um fenómeno de globalização, tal como se falou à pouco, com a Coca-Cola! (risos)

Ou seja, a série Dallas!

Exactamente! Dallas! Ela foi uma das actrizes principais e mais conhecidas do Dallas e foi aí que eu a conheci. Tornou-se uma actriz que me faz sempre sorrir, de cada vez que eu penso nela! (risos)

Quais é que são as tuas músicas preferidas?

Olha se eu te quiser soar erudito, intelectualmente interessante, posso mencionar as músicas de intervenção. Porque essas são, para mim as músicas mais bonitas e são as que eu me ponho a ouvir muito de vez em quando, porque gosto de as ouvir e gosto das letras e daquilo que estas músicas me fazem sentir. Daquilo que nos querem transmitir. Músicas favoritas... Bem, eu oiço de tudo um pouco. Acho que por motivos nostálgicos, gosto muito das músicas dos anos 80. Desde há uns 10 anos para cá que voltaram a estar na moda. Sejam elas músicas dos anos 80 muito giras e muito boas ou sejam músicas dos anos 80 que sejam muito cheesy e que passam nas discotecas e toda a gente ouve! músicas essas que na altura eram consideradas música pimba e que hoje em dia já toda a gente gosta. Por mais intelectual que seja a pessoa, se gosta de música dos anos 80, ouve aquilo! (risos) As músicas dos anos 80 tornaram-se ouvíveis e eu às vezes divirto-me muito com a música dos anos 80.

E eu concordo, é uma boa escolha! (risos) Qual é a pessoa mais importante da tua vida?

Os meus pais, em particular a minha mãe.

Qual é que foi para ti o melhor e o pior momento que já enfrentaste na tua vida, até hoje?
Tive muitos momentos em que me senti realizado, que foi quando estava no grupo de Teatro. Nessa altura, senti-me muito realizado. Gostei muito daquilo, gostava de ter gravações daquilo. Se pudesse e se tivesse gravações suficientes das várias representações que eu fiz, até gostava um AMV, (risos)  a brincar com uma música que eu adoro, uma qualquer, num vídeo com todas as minhas cenas a passar. Acho que é a coisa mais narcisista que eu devo ter! (risos) Já que eu fiz tantos AMV's, depois até te posso mostrar, já me imaginei a fazer tantos AMV's, de tantas pessoas! (risos) Os meus melhores momentos são quando eu estou a representar e as pessoas estão a ver-me e os momentos em que eu também estou a partilhar aquilo que eu sinto e aquilo que eu acho, os meus pontos de vista. Também os momentos em que eu estou a falar de História e que eu noto que as pessoas estão interessadas e que me fazem perguntas. Isso para mim é o que eu mais gosto. é o de poder compartilhar aquilo que eu sei. Aí é quando me sinto mais realizado. Os piores momentos, são momentos de perda, em que tenho de lidar com a perda física, seja a nível de expectativas.

Do que é que tu te orgulhas mais?

Olha, algo que jamais iria dizer há 1 ano atrás ou há 2 anos atrás: orgulho-me de já ter passado por muito na minha vida a nível psicológico, a nível de carga psicológica e ainda estar aqui.

Eu por acaso estava a pensar que tu irias dizer: tenho orgulho de ser como sou.

Não sou a melhor pessoa para falar bem de mim.

Lá está, porque tu és muito auto-crítico. Qual é a cor que define o Amor?

A cor? É o cor-de-rosa, claro! (risos)

Acreditas no karma?

O karma como estarmos predestinados a fazer alguma coisa?

Sim... Ou a levar "nas orelhas" por alguma coisa que fizemos! (risos)

De certa maneira.

Lobos ou Raposas?

Os animais em si, certo?

Tu é que sabes, entende como quiseres! Sentes-te mais um lobo ou um raposo? (risos)

Ah, eu estava a pensar nos animais!

Tu podes e deves interpretar a pergunta como quiseres!

Acho os lobos mais agressivos. Acho-os lindíssimos, muito mais bonitos que as raposas. Como os acho muito mais agressivos, se calhar escolhia raposas.

Como imaginas que será a vida noutros planetas?

Imagino que será muito silenciosa, porque não há ar, acho eu! (risos) Ainda estamos para descobrir isso, não é?

E agora, vamos à última pergunta difícil: qual é o teu maior "E se...?"

O meu maior "E se...?" (pensativo) E se eu tivesse seguido, se eu tivesse enveredado muito mais cedo na parte de representação? E se eu tivesse tido mais cedo estofo pessoal  para não me importar com a opinião dos outros e ter ido para a política, enveredado por uma juventude partidária?

Mas ainda vais a tempo!

Sim, nunca se sabe! Se temos actualmente um primeiro Ministro que se licenciou aos 30 e tal anos de idade e que fez toda a sua vida numa estrutura de poder, no nosso país vamos sempre a tempo! (risos) Mas não é isso, o meu maior "e se...?" seria E se eu tivesse aproveitado muito mais a minha vontade e a minha gana de fazer as coisas, como dizem os espanhóis... (risos)

Aquela ânsia...

Sim, isso! Aquela ânsia, exactamente de fazer as coisas a nível de política local. Eu quando digo política, mais uma vez não estou a pensar em altas estruturas.

Sim já deu para perceber que tu és um rapaz "terra-a-terra", de proximidade com as pessoas.

Para mim essa é a parte mais bonita da política. E é a única que vai determinar o futuro do nosso país, é a parte de lidar com as pessoas. Portanto, para concluir, e se eu tivesse pegado muito mais na minha ânsia e tivesse aproveitado ou me tivessem ajudado a aproveitar muito mais a minha vontade de fazer Teatro e de me meter na política local, numa Junta de Freguesia, etc. ?

Lá está, ainda vais a tempo, digo eu! (risos)

Mas a ânsia já não está lá, quer dizer, já não tenho tanta! (risos) Mas lá está, já passei por muito e neste momento estou focalizado noutras coisas.

E agora... Vamos à tua parte favorita! Como surgiu a tua paixão pela Sailor Moon? Deixei esta temática para o fim de propósito! (risos)

E fizeste tu muito bem, deixaste-me logo a sorrir! (risos) Muito naturalmente. Foi olhar para o anime, nos anos 90. Foi olhar para a televisão. Foi ver o desenho. Foi ver o conceito e adorar! (risos)

Se pudesses ser uma das personagens, quem é que tu eras?

Eu nunca me imagino na pele de uma personagem que já exista. Porque tenho muita dificuldade ou melhor dizendo, tenho preconceito contra mim, em querer-me pôr no papel de alguém. Parece que estou a querer tirar o lugar a alguém. Não sei, sinto-me um pouco desconfortável a imaginar-me no papel de alguém.

Mas imagina que tu entravas para o elenco da série.

Para dobrar a série?

Não, imagina que te tornavas uma personagem do anime. Quem é que serias?

Em pequeno, imaginava-me como sendo uma versão masculina da Navegante de Neptuno. Sempre me senti muito confortável com a personalidade da Neptuno. Porque era alguém que fazia a diferença, estava ali a fazer a diferença, mas na rectaguarda, sendo também uma pessoa bastante suave. E eu sinto-me muito mais confortável nesse tipo de registo, em relação aos outros. Portanto, eu seria uma personagem que ajudaria a fazer a diferença, mas que fosse especial pela sua singularidade, que tivesse as suas particularidades, os seus gostos muito pessoais e particulares, mas que não estivesse na linha da frente.

Quantas peças tens actualmente na tua colecção?

Já perdi a conta...! (risos) No myfigurecollectiondot.net, uma espécie de rede social de action figures, eu tenho lá todas as peças! Porque é assim: tu compras uma colecção e no myfiguredot.net tens lá cada item dentro da colecção. Eu às vezes compro conjuntos e desses, tenho quase 80.

Qual é que é o teu item favorito?

É impossível! (risos) Em Sailor Moon é impossível. Não consigo ter um favorito. Para mim, o meu item favorito é eu olhar para a minha estante e ver tudo aquilo ordenado e decorado como eu gosto. É o que me dá mais gozo. Não é ver só um item. Consigo gostar de todas as figuras individualmente, mas o que eu mais gosto, é de ver, por exemplo, uma das prateleiras, bem decoradas por mim, com aquelas coisinhas todas ali juntas. Um peluche, mais uma Proplica, etc. Seja que peluche for, seja que Proplica for, seja que PetitChara for, seja que Action Figure for, não é bem isso que eu me interesso. O que eu  gosto de ver é poder pegar naquilo e decorar e ver aquilo ali exposto. Isso é o que me dá mais gosto.

Qual é que é o objecto mais raro que tu tens na tua colecção?

O objecto mais raro que eu tenho na minha colecção, que bem, todos  os objectos para quem é coleccionador, têm a sua história...

Sim, têm um valor sentimental!

Sim, têm um valor sentimental e têm uma história de como é que os adquirimos, uns mais facilmente que outros. O objecto que eu creio, que seja o mais raro da minha colecção é um porta-chaves  de peluche, oficial da Bandai, que tem a Sailor Chibi Moon e a Luna Pi. Eles eram 3 conjuntos, destes porta-chaves com as mascotes. Saiu um que era a Luna com a Sailor Moon, saiu depois a Sailor V com o Artémis e no outro conjunto, saiu a Sailor Chibi Moon e a Luna Pi. E isto saiu no final de 2013. Nessa altura eu ainda não estava propriamente dentro da colecção de Sailor Moon, ainda! (risos) Portanto, eu sou ainda muito, muito, muito recente a fazer colecção de Sailor Moon! (risos)

E já tens 80 conjuntos! (risos)

E já tenho 80 conjuntos, é verdade! É um orgulho enorme que tenho, em construir esta colecção! (risos)

Se cada conjunto tiver pelo menos 3 peças...

Tenho tido uma média de 3/4 compras por mês. Tenho tido essa felicidade! (risos) Os meus pais, apesar de não compreenderem bem o mundo do coleccionismo, apesar de não compreenderem bem estas coisas, porque têm a idade deles, me estão, à sua maneira, a deixar fazer isto. E não lhes posso pedir mais do que isso. Já me estão a deixar feliz, a deixar ser feliz à minha maneira e é a única coisa que lhes posso pedir. E tenho o apoio das pessoas que estão à minha volta e com quem moro. E isso a nível de estrutura emocional, a nível de não me estar a sentir culpado por estar a comprar estas coisas, a não me sentir culpado, a estar a guardar parte do dinheiro para isto, em vez de para um seguro de saúde, coisa que hoje em dia está na moda! (risos) Tenho tido a felicidade de poder todos os meses ser feliz a pesquisar, a poder comprar e a ter esse apoio, não só em casa, como na minha família, como nas pessoas que estão mais próximas de mim. E essa é a maior felicidade que eu posso ter. Como eu te estava a dizer, o terceiro conjunto é a Sailor Chibi Moon e a Luna Pi. Estes 3 conjuntos saíram nos finais de 2013 e na primeira metade de 2014. Eu consegui obter logo os dois primeiros conjuntos mas a Sailor Chibi Moon e a Luna Pi desapareceram completamente de tudo o que era espaço! Eu procurei no Ebay, Amazon, enviei mensagens a vendedores de merchandising de Sailor Moon. Enviei  mails para administradores de páginas de facebook, de França, Japão, Brasil, Estados Unidos, Canadá... Sites de fãs, blogs, eu contactei-os a perguntar se tinham à venda. Enviei para lojas como J-list, entre outras, para perguntar se eles voltariam a receber, porque estava esgotadíssimo! Eu não encontrava aquilo em lado nenhum! Chegaram-me a perguntar se realmente aquele item existia, porque eu nem via reviews de fãs, porque às vezes os fãs  fazem aqueles vídeos no youtube, os unboxings e etc, e eu não via isto! Vi isto, efectivamente, este conjunto, apenas numa rapariga que compra quase tudo o que sai de Sailor Moon e ela de facto tinha este 3º conjunto com ela, mas por acaso ela foi das poucas que não me respondeu, quando lhe perguntei aonde tinha arranjado! (risos) Isto é um produto de edição limitada e eu não ia pedir a um fã que mo vendesse, porque eu sabia que aquilo era um produto único. Eu queria que a tal rapariga me desse pelo menos ideias ou indicações de onde o tinha adquirido para eu o comprar, nem que fosse em 2ª mão! (risos) Eu queria era ter o conjunto final das 3!

Era como reunires os 3 Talismãs! (risos)

Exacto! (risos) Uns meses depois, eu estive 6 ou 7 meses à procura. Ia aos sites de leilões do Japão e houve um dia em que encontrei lá e comprei imediatamente! (risos) Não é um item caro. Não é um item que a nível de material tu possas dizer que é muito bom, como algumas coisas que eu tenho e que de facto tem saído e são boas. Este objecto não é assim uma coisa do "Outro Mundo" (risos) mas foi uma coisa que me foi muito difícil de encontrar e por isso, para mim, tenho um enorme carinho por ela.

Sailor Moon ou Sailor Moon Crystal?

Vou contra a corrente e dizer Sailor Moon Crystal. Porquê? Sailor Moon abriu-nos as portas para termos Sailor Moon Crystal, sem dúvida. O primeiro anime foi aquele que colocou não só este nome no Mundo, Sailor Moon, como fez com que a própria autora ficasse trilionária! (risos) foi o trabalho de maior notoriedade que ela fez. Portanto, o primeiro anime foi, sem sombra de dúvidas, muito mais popular. Foi uma bomba, uma pedra no meio do lago, que abanou o mundo dos animes, na altura.

Foi talvez o pioneiro numa nova era de animes. Porque os anos 90 foram muito ricos em termos de animes.

Sim, isso sem dúvida. Tens 3 animes muito conhecidos e que deram um grande salto a nível de popularidade. Os 3 animes que saíram do Japão e ficaram mais conhecidos no Mundo Ocidental foram Saint Seiya - Os Cavaleiros do Zodíaco, nos anos 80, Sailor Moon e Dragon Ball. Foram estes os 3 animes que deram assim aquele passo de gigante para que a Cultura Japonesa ficasse conhecida. E depois é impossível não falar também no mundo dos Tokusatsu, os Super Sentai, que deram origem depois à adaptação norte-americana, conhecida como os Power Rangers. No Japão, eles existem como os Super Sentai há mais de 35 anos. É uma cultura que eles têm lá que é muito, muito grande e que é muito pouco conhecida no Ocidente, infelizmente. Serão estes os 3/4 gigantes que vieram da Cultura Japonesa. A Sailor Moon tem dentro destes animes, tem um próprio nicho, não é? É uma anime que retrata muito o universo das raparigas. Curiosamente tem muitas questões lgbt lá pelo meio, que não se notam, nem se percebem muito bem. Estão misturadas dentro dos plots e as pessoas mais distraídas nem reparam, mas que estão lá, claramente. O primeiro anime é sem dúvida o mais importante. Mas eu acho que a Sailor Moon Crystal tem sido pouco valorizado, pela sua importância na comemoração dos 20 anos de Sailor Moon, de reorganização dos fãs, de voltar a fazer com que nós, que já não temos nem 5, nem 10 anos, a ver Sailor Moon, temos agora 20, 25, 30, 35, 40 anos, a voltar a revisitar Sailor Moon! Isso está a fazer com que, por exemplo, na dobragem portuguesa, nós, que já não somos crianças, possamos dar a nossa opinião, influenciar de maneira positiva junto dos estúdios de dobragem, junto de quem quer  ouvir os fãs e de quem quer ter um bom trabalho, um trabalho reconhecido, neste caso o 112 Estudios, que estão a fazer um excelente trabalho. Eles fazem um trabalho meritório de auscultar os fãs de Sailor Moon e quem vive Sailor Moon há 20 anos, que é o nosso caso! Sailor Moon Crystal está a ter um papel privilegiado neste ponto de vista, de comunicação entre quem trabalha nisto e quem vive, quem gosta disto! Hoje em dia tens imenso merchandising de Sailor Moon, coisa que até há 3 anos atrás não acontecia, havia muito pouca coisa, que já tinha saído nos anos 90. Eram objectos difíceis de obter porque não havia a divulgação que há hoje e na sua maioria eram brinquedos. A nível de merchandising, em comparação com Saint Seiya e Dragon Ball, Sailor Moon estava muito abaixo, para a popularidade que tem. Sailor Moon Crystal  tem uma história mais fiel à manga, e que tem uns pequenos acrescentos que eram fan arts à 20 anos atrás, nomeadamente um possível romance entre os 4 Protectores do Príncipe Endymion e as 4 Protectoras e Guardiãs da Sailor Moon. Para quem não sabe, Os 4 Generais do Reino das Trevas e as 4 Guardiãs da Princesa Serenity, foi um fan-art que houve nos anos 90. Isso acabou por sair num livro da autora, a Naoko Takeuchi, apeteceu-lhe desenhar os 4 casais juntos e aquilo ficou tão popular entre os fãs que entretanto colocaram isso neste anime. É super giro e mostra o quão diferente e por quantas áreas se pode abordar este anime! E depois também temos a atracção que a Plutão tem pelo Príncipe Endymion, muito escondida e respeitada, que também foi algo que não foi quase abordado na manga, seno algo que os fãs é que discutiam muito. Nesta série os produtores colocaram muito mais ênfase e deram mais cor a essa história e eu acho isso maravilhoso. Sailor Moon Crystal permite não só o público mais velho revisitar e matar saudades, mas também permite criar novos públicos. E eu acho que é isso que torna uma série eterna.

Eu acho que quem ler esta entrevista já saberá esta resposta (risos) mas cá vai: Quem é a tua personagem preferida e porquê?

Como eu disse há pouco, a personagem com a qual mais me identifico a nível de personalidade, é a Sailor Neptuno. Mas o facto de eu adorar a personagem, o facto de eu adorar o planeta, o facto de na mitologia romana eu ter mais tendência para gostar do Neptuno/Poseídon e gostar do Tridente... Sinceramente não te sei dizer se ela será a minha personagem favorita. Mas eu também não te sei dizer quem é a minha personagem favorita...

São todas! (risos)  

Eu tenho muitas personagens que eu gosto muito. A Neptuno é de facto uma das minhas favoritas. Tenho um carinho muito grande pela Luna Pi. Acho que é um robot muito fofo e quase ninguém lhe liga nenhuma.

Ele era um querido!

Eu acho a Luna Pi super fofa! Acho imensa graça e ria-me quando no anime, nos anos 90 a Chibiusa se transformou na Black Lady e a Luna Pi deixou de ter uma lua para cima e passou a ter uma lua para baixo! (risos) Achei imensa piada aquilo e depois ela mudava, umas vezes com a lua para cima, outras vezes com a lua para baixo, enquanto a Black Lady estava com dúvidas quanto à sua própria consciência. Acho um objecto muito fofo de se ter como companhia e a nível de solidão, todas elas foram muito solitárias nas suas historias, mas acho que a solidão da Chibiusa foi a mais marcante, porque ela era uma criança. Quando eu vi aquilo no início, fez-me muita confusão. Eu nunca disse isto a ninguém, mas a solidão de uma criança que chega a um mundo completamente diferente, com os pais mortos ou quase mortos, para mim, enquanto criança, foi muito traumatizante. A Luna Pi desde essa altura que ficou um robot super querido e super fofo. Também gosto muito dos inimigos de Sailor Moon. Acho que os inimigos de Sailor Moon são dos inimigos mais inteligentes, mais complexos que há, em muitos animes. Não são do estilo daqueles brutamontes, que são do estilo "eu faço, eu aconteço e sei lá mais o quê". (risos) Eu não gosto muito de personagens que se achem com o "Rei na Barriga". Comparando animes, nesse aspecto eu não gostava do Freezer, de Dragon Ball Z, mas gostava do Cell, o Buubuu e o Baby, já no Dragon Ball GT, porque estes tinham a capacidade de se aperceber de quando o seu nível de poder estava em perigo, estava em baixo e tinham a capacidade de dar à volta por cima, fosse às custas de absorver outros guerreiros ou de explodir com a Terra! (risos) Em Sailor Moon, a maior parte dos vilões são inimigos muito inteligentes, com plot lines muito complexos e são personagens muito interessantes! E mais! Tenho a dizer que em Sailor Moon, sejam homens ou mulheres, os vilões são giríssimos para caraças!

Mesmo! (risos)

Os homens e as mulheres são sexys, vestem-se bem, cheios de classe

Cheios de classe, educados!

É verdade! Cheios de classe, super educados, espalham imensa moda por todo o lado! (risos) Aliás, a Naoko Takeuchi chegou a basear-se em algumas colecções de moda, da moda de Paris dos anos de 91, 92, 93, 94 para alguns dos fatos que ela depois colocou nas Irmãs da Caça, por exemplo. Neste caso, na Karmesite. É um fato que ela desenhou e colocou no anime e que foi um fato de alta costura que ela tirou de uma revista de moda francesa. A Calaverite também. Outros fatos são o da Saturno e da Plutão que estão em art-books. O fato da Black Lady é idêntico a um Yves Saint Laurent do início dos anos 90. Eu acho que a nível de personagens, os vilões de Sailor Moon dão um cor e um toque essencial ao anime para ter o sucesso que tem.

E sejamos sinceros, não há ninguém que fale mal deles, toda a gente gosta! Isto porque eles tem sempre alguma história por detrás, deles serem assim. Nós compreendemos o lado deles e por vezes até chegamos mesmo a identificar-nos com eles...

Exacto, com os motivos que os levaram a agir assim! (risos) E digo-te mais, para mim, como grande fã dos vilões de Sailor Moon, sabe sempre a pouco o tempo que eles lá estiveram! (risos)

E agora, a última pergunta: se o Mundo inteiro te estivesse a ouvir agora, o que é que tu dirias?

Eu diria para continuarmos a ver as nossas séries favoritas, para continuarmos a ter relações sociais e a conhecermo-nos. Falarmos todos sobre as coisas que mais gostamos, sobre aquilo que dá cor à vida. É preciso ter condições psicológicas, económicas e familiares para continuarmos a termos a idade que temos e continuarmos a gostar das nossas coisas e a conversar com as pessoas e termos esperança uns nos outros. Não devemos ficar em casa só porque tivemos umas desilusões com uns amigos, com uns ex-namorados ou ex-namoradas. Não devemos fechar-nos cada vez mais nas nossas conchas. Não devemos achar que o mundo somos só nós e que este é um mundo-cão e que lá fora não interessa para nada. Não devemos pensar que só me interessa eu e os poucos que eu conheço, que provam-me que não me vão desiludir. Acho que é muito importante para sermos felizes, criar blogues, rádios, sites, comprar merchandising que gostamos. Trabalhar naquilo que gostamos. Mesmo que trabalhem para comprar mais merchandising! (risos) Acho que é excelente as pessoas sentirem-se motivadas para trabalhar. Algo que lhes dê motivação, que as faça acordar de manhã e queiram fazer algo que lhes dê prazer. Eu acho que para fazer coisas que nos dá gosto, é preciso ter qualidade e condições de vida para o fazer. É indispensável a vida económica, política e social, mesmo que nós não nos apercebamos, para nós continuarmos aqui sentados, a fazer esta entrevista. Tiveste de vir da tua terra, de comboio, para me vires entrevistar. Isso implicou uma escolha política, de um preço de um bilhete, de um serviço. A roupa que eu tenho, o gravador que tu tens. O facto de estarmos aqui, a nossa estabilidade emocional, psicológica, também tem a ver com as condições económicas e sociais e o bem-estar de com quem nós vivemos. Nós não estamos sozinhos, por muito que nos digam o contrário. Eu acho exactamente o contrário. Para nós podermos sorrir, fazer o que gostamos, temos que nos organizar, como sociedade. Passar a confiar um pouco mais uns nos outros e temos de voltar a aprender a estar em sociedade. Eu acho que hoje em dia com a Internet, com um Skype, estamos muito habituados apenas a teclar e a falar sozinhos. Nós no conforto do nosso sofá a falar com outra pessoa. Para termos um mundo mais justo, mais igual e uma sociedade mais equilibrada, temos de aprender a estar em sociedade e a falar pessoalmente e ir a cafés, para se conviver. Tudo isto para podermos ter condições e possibilidade de não voltarmos a ficar na miséria, como acontece em África, onde as pessoas vivem daquilo que têm à sua volta. Elas sobrevivem como podem e morrem cedo, vítimas da fome, da guerra ou de doenças. Nós temos direito ao trabalho, direito a trabalhar menos, para termos tempo livre, para podermos estar saudáveis, com a nossa cabeça saudável, para fazermos aquilo que queremos, para estarmos bem uns com os outros e para produzirmos coisas intelectuais, seja um livro, uma rádio, um blogue... Podermos produzir algo que nos dê gosto sem que seja apenas um trabalho. Acho que é este sumo que faz uma sociedade evoluir! Por tudo isso, aquilo que eu peço às pessoas é que intervenham mais nas suas comunidades.  :)

Tito com a Luna P ao colo!

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