18/04/2016

Sphinx Talks! #1.3 [PT]

Para hoje trago uma entrevista que fiz ao Carlos Freixo, conhecido por muitos de vocês como o homem que deu voz ao Simba, o Rei leão e ao Mewtwo, nos primeiros filmes Pokémon, entre outros papéis!

O Carlos Freixo é um dos mais importantes artistas no panorama da dobragem em Portugal. Como é que entrou neste universo?

Carlos Freixo: Entrei já no século passado! [risos] Literalmente no século passado. Comecei na RTP. Comecei precisamente na altura em que grande parte dos desenhos animados eram japoneses e começaram a fazer uma série chamada "As Aventuras de Nils Holgersson", que foi a minha primeira experiência de dobragem. Nós fazíamos um casting na altura, eu entrei por casting e tive a sorte de ficar logo apurado.

Nils-Holgersson


E ainda bem! [risos]

Carlos Freixo: Quando comecei, comecei a trabalhar com o João Lourenço. Na altura, os directores de dobragem que havia eram o João Lourenço, o João Perry e o António Montez. Mais tarde seguiu-se o António Feio e a seguir, eu. Comecei por essa ordem, precisamente: o João Lourenço, o João Perry, o António Montez e o António Feio. Depois fui convidado para dirigir e comecei a dirigir dobragens.

Eu tenho de confessar que para mim, antes de mais, é uma honra conhecê-lo pessoalmente!

Carlos Freixo: Muito obrigado! [risos]

Digo isto porque a pergunta que se segue tem a haver com algo que para mim é muito especial, porque eu era um grande fã do Aramis [risos] na série “Os 3 mosqueteiros”. Eu gostava muito da personagem e quando soube quem era a pessoa que lhe dava voz em Portugal, fiquei realmente bastante feliz. Em 1987, para os leitores que não conhecem, passou na RTP um anime muito giro e muito fixe chamado “D'Artagnan”, em que o Carlos Freixo deu voz a Aramis e ao Rei Luis XIII.


Carlos Freixo: [risos] Sim, é verdade!

Quais são as memórias que tem dessa experiência?

Carlos Freixo: Essa foi a primeira série que eu fiz dirigida pelo António Montez, foi onde eu comecei a ter noção do que é uma dobragem. Nós caímos um bocado de pára-quedas nisto, não há propriamente uma formação na área de dobragem. Com o António Montez eu aprendi e percebi o que podia ser o rigor de uma dobragem. Ainda hoje há coisas que eu sigo, como viste à bocadinho [eu assisti à gravação de um episódio de "A Princesa Sofia" e de uma outra série] não deixar uma boca que seja em "O" com um "A", por exemplo. Há um certo rigor técnico e eu comecei a aprender a parte técnica precisamente nos 3 Mosqueteiros. Os 3 Mosqueteiros tem uma história engraçada. Quando me distribuíram o Aramis, não fazia ideia nenhuma que o Aramis no final era uma mulher! De maneiras que, quando descobri, na altura nós mudamos no final, foi a Luísa Salgueiro quem acabou de fazer o papel da Aramis. Comecei eu e passou para ela! [risos]

Eu realmente lembro-me que havia assim umas pistas que mostravam que o Aramis não era bem aquilo que aparentava ser! No episódio 45 acabamos por descobrir a verdade, quando é revelado o passado do Aramis, melhor dizendo, da Aramis! [risos]


O momento da trama onde na mangá, o Jean descobre que Aramis é, na verdade, uma mulher!
Carlos Freixo: Exacto! [risos]

[Nota do Sphinx: Vou partilhar com vocês um segredo: o Aramis foi a minha primeira paixão platónica! Eu adorava-o! Achava-o lindo! Recordo-me que gostava de me imaginar a ser salvo por ele! Qual o meu espanto, quando descobri que era uma rapariga!] xD

Em que é que o Carlos se inspira para dar voz às personagens animadas e vida às personagens de teatro?

Carlos Freixo: É assim: as personagens animadas baseio-me muito no original. Portanto, o original para nós é sempre a referência. Eu tento criar com base no original, ou seja, nem sempre todas as personagens que eu faço são iguais ao que o americano fará. Por exemplo, eu faço o Tigre do Winnie the Pooh, e essa personagem eu faço à minha maneira, assim como o Pateta, que também faço à minha maneira. Tive cá o CEO da Disney, Michael Jobbs, que me disse: "You're a natural!" [a propósito da interpretação do Simba] e foi uma honra ele ter-me dito aquilo. Às vezes, mais importante que a voz, é a personagem. Mas a voz tem de se assemelhar, evidentemente! Não se pode fazer o Mickey com uma voz grossa, tem de falar sempre naquele tom [faz a voz do Mickey]. Da mesma forma o Pateta, ele tem sempre aquele tom. [faz a voz do Pateta]. As personagens de teatro, televisão ou seja do que for tem sempre como base o guião. Qualquer guião, qualquer texto, qualquer produto escrito, nós interpretamos à nossa maneira. É por isso que quando uma pessoa diz que livro é melhor que o filme, é porque quando lemos um livro, fazemos o filme na nossa cabeça e não será necessariamente igual à visão do realizador. Eu baseio-me nas minhas experiências e vivências para interpretar as minhas personagens.

Na sua opinião acha que é fácil fazer dobragens? Que requisitos deve ter um bom dobrador?

Carlos Freixo: Primeiro de tudo, deve saber interpretar. Por isso é que nós só trabalhamos com profissionais. Quer seja na parte musical com cantores, que seja na parte de representação com actores. Se tivermos actores-cantores, melhor ainda! [risos]

Poupa trabalho! [risos]

Carlos Freixo: Poupa trabalho, exactamente! [risos] Portanto, tem de se ter, para além duma boa capacidade interpretativa, devem ter uma boa voz e tem que se ter um bom sentido musical e rítmico. Eu acho as dobragens um bocado musicais. Isto tem um tempo, cada personagem funciona no seu tempo. Tem um determinado ritmo de falas, muitas vezes à quase “deixas musicais”  para uma pessoa entrar a falar. Por isso, a interpretação, musicalidade e ritmo serão o fundamental. Se uma pessoa for um excelente actor, melhor! Embora aja muitos actores que não conseguem dobrar...

Não tem voz...

Carlos Freixo: Não conseguem. Tem a ver com o faltar o ritmo, por exemplo...nós aqui interpretamos à primeira. Eu pego num texto, se for preciso leio-o uma vez e a seguir tento interpretar o mesmo. Eu não o ensaio. Se for para o teatro, ensaio, pois tenho tempo para o fazer. A dobragem não, é uma coisa mais imediata. Para mim existem 3 tipos de memória: a memória longa, que será a memória de teatro, já que uma pessoa tem tempo para ensaiar - eu ainda hoje se quiser dizer textos de Gil Vicente, que ensaiei em 1980, consigo dizê-los a quase todos, apesar de ser muita coisa. A memória longa é a memória de teatro. A memória de televisão será uma memória média, que é o tempo de uma pessoa estudar o papel em casa, chegar lá no dia seguinte, dois dias depois ou se tiver tempo, fica uma semana a estudar o papel, e depois diz o texto, será uma memória média.

Isso é muito interessante!

Carlos Freixo: Exacto! Uma memória de dobragem, é uma memória curta. As memórias de televisão por exemplo, levo dois, três dias a esquecer. A memória de dobragem, se me perguntares o que fiz à bocadinho, eu já não me lembro. [risos] Porque é imediato.

Não há necessidade de estar a guardar...

Carlos Freixo: Não, não... Que é para não queimar o disco! [risos]

Depois do sucesso da dobragem do Rei Leão, já que a dobragem portuguesa foi considerada a 2ª melhor versão, a nível Mundial, as dobragens da Disney ganharam uma dimensão de referência. Sente que a fasquia foi colocada demasiado alta? 


Carlos Freixo: Não...! Nós estamos à altura! [risos] Aliás, nós procuramos melhorar, de cada vez que fazemos um produto, seja da Disney, seja do que for. Embora a Disney seja uma referência, se tivermos de fazer um produto de “menos qualidade”, não vou facilitar por causa disso. Tento dar sempre o meu melhor, seja em que produto for. O produto pode ser, em termos comuns, uma “cagada” [risos] que eu tento dar sempre o meu melhor! [risos] Acho que a minha função, enquanto criador - já que isto é um trabalho de criação, é tentar sempre melhorar! Eu hoje se for ver “O Rei Leão” , há coisas que de certeza eu fazia de maneira diferente. Eu nunca estou contente com o que faço...

É um bocado perfeccionista... [risos]

Carlos Freixo: [risos] É verdade! Podia ser melhor! [risos] Quando vi a versão final, comecei a pensar: “é pá, porquê que não me lembrei disto?” E quem diz o Rei Leão diz noutras coisas. Há coisas que por vezes podia ter adaptado de outra maneira... Mas não acho que isso seja colocar a fasquia demasiado alta. Põem a fasquia mais alta e a gente sobe! [risos]

Isso é muito bom! Então e que tipo de personagens gosta de interpretar?

Carlos Freixo: Não gosto muito de dobrar imagem real, de dobrar pessoas, embora às vezes tenha que o fazer. Gosto mais de fazer desenho animado. Dobrar imagem real é a única coisa que eu não gosto de fazer.

Se não gosta, não gosta! [risos] Qual foi a personagem que gostou mais de dobrar até hoje? E qual foi a que menos gostou?

Carlos Freixo: As que menos gostei, basicamente, foram todas as que fiz de imagem real. Não me convence. As que mais gostei - o Simba do Rei Leão, por motivos óbvios, foi a primeira; houve uma que passou na RTP há muito tempo, que foi a primeira que me deu imenso gozo, que foi o Patrácula. Mais tarde houve outra versão dele e eu fiquei horrorizado, mas pronto! [risos] A nível da Disney, adoro o Phineas e o Ferb, gosto muito de fazer essa série!


Em "Phineas e Ferb" o Carlos desdobra-se em “milhentas” personagens! [risos]

Carlos Freixo: É verdade! [risos] As que mais gosto é o Baljeet e o Buford. Outras personagens da Disney: o Tigre de Winnie the Pooh, é um personagem que tem a ver comigo [risos] e o Pateta também tem um bocado a ver comigo [risos]. A nível de publicidade, há uma personagem que eu sempre gostei muito de fazer - o coelho Quicky, do Nesquick! Sempre gostei muito de o fazer!

Quando deu voz ao Mewtwo, no 1º filme de Pokémon, a série estava no seu auge em Portugal. Como viu a sua participação nesse filme, uma vez que também dirigiu os actores de dobragem, tanto nesse filme como no filme seguinte, “Pokémon 2000 - O Poder Único”?

Carlos Freixo: Quando a Warner Bros me contactou para o lançamento do filme, quis subir um bocadinho a fasquia da qualidade.

Quis que a coisa fosse bem feita! [risos]

Carlos Freixo: Ora nem mais! [risos] Exactamente! Eu fui buscar grande parte dos actores que já dobravam a série cá em Portugal, só que eu tento dar sempre o meu cunho pessoal na direcção de actores. A minha direcção é sempre apostada na qualidade da dobragem. Não só na qualidade técnica, porque houve uma altura em que os preços da dobragem baixaram tanto que isto começou a fazer-se de qualquer maneira. O meu desafio foi pegar nos actores que dobravam a série e fazer com que eles fizessem bem o seu trabalho. O Mewtwo é um personagem que também tem bocadinho a ver comigo.

Eu acho que o Carlos partilha o 1º lugar ex aequo com o Phillip Bartlett [o actor que deu voz na versão americana e que infelizmente faleceu em 2001, dois anos depois de interpretar este papel]. Foi fácil dar voz ao Mewtwo? Gostou do personagem?

Carlos Freixo: O Mewtwo tem algo de muito interessante. Passa-me um bocadinho de paz interior. Eu gostei de o fazer precisamente por causa disso. Sou uma pessoa um bocado “eléctrica”. [risos] O Mewtwo puxa-me um bocadinho pela a minha parte mais...


Serena.

Carlos Freixo: É isso! Exactamente! Serena! O que eu gostei no Mewtwo foi a serenidade.

Qual ou quais as personagens que nunca dobrou, mas gostaria de dobrar?

Carlos Freixo: Isso é uma bela pergunta! Eu acho que não há assim nenhuma personagem que eu gostasse de fazer. Não sou como alguns que dizem: “Ai que eu gostava mesmo de fazer o Rei Lear antes de morrer!”. Não tenho nenhuma personagem que queira fazer, nem mesmo em teatro. Eu gosto de ir aceitando os desafios, há medida que eles me aparecem! Acho que a melhor resposta que te posso dar é - interpretar aquelas personagens que ainda não foram feitas! [risos]

Qual foi o maior desafio que já teve até hoje?

Carlos Freixo: Sem sombra de dúvidas, o Rei Leão. Embora seja a minha voz, é o nível de produto. Porque é assim: na altura ou se conseguia que a dobragem fosse um sucesso e a partir daí, abria-se assim um novo mercado em Portugal, ou então voltava-se ao Brasil. A nível de desafio de dobragem, foi sem dúvida, o Rei Leão. Tinha de ficar uma coisa muito bem feita, para mostrarmos à Disney que nós tínhamos capacidade de fazer.

E ficou muitíssimo bom! O Carlos prefere fazer dobragens ou prefere fazer teatro? 

Carlos Freixo: Eu gosto de fazer tudo. Gosto de fazer teatro, gosto de fazer dobragens, gosto de fazer televisão, gosto de fazer cinema...gosto de fazer tudo!  Depende é do produto! [risos] Entre fazer boas dobragens e uma má peça, prefiro fazer boas dobragens! Entre fazer umas péssimas dobragens e uma boa peça, prefiro fazer uma boa peça! Gosto é de fazer uma coisa que seja bem feita! [risos]

Parece-me muito interessante! E agora, para terminarmos, quer deixar algumas palavras aos seus fãs? Aos fãs dos seus trabalhos?

Carlos Freixo: Continuem a ver desenhos animados! Continuem a divertir-se! Eu quero que as pessoas se divirtam. Aliás, eu quero divertir-me! Se eu me divertir e passar a diversão para os desenhos animados, as pessoas divertem-se! E isso é o mais importante!

carlos-freixo

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