15/04/2016

Sombras da Luz: Despertar, Capítulo 6

Capítulo 6: Cumplicidades

- Mas afinal o que foi que te aconteceu? - inquiriu Mikel, tentando não olhar para o corpo desnudado de Hórus. 

Rindo-se entredentes, tratou de procurar umas peças de roupa que eventualmente lhe pudessem servir. 

- Caramba, tu és mesmo muito alto, não sei se tenho roupa que te sirva cá em casa! - prosseguiu, enquanto se ria divertido e abanava a cabeça.

- Oh, não preciso! Por mim, posso andar bem à vontade assim, sem roupa nenhuma. Não te incomoda, pois não? - perguntou Hórus, tirando os "farrapos" que outrora considerara a sua armadura.  - Neste planeta até estou bem melhor assim...

- Por mim, não há problemas! - respondeu Mikel, corando imenso quando viu Hórus completamente nu à sua frente.

Este começou-se a rir, divertido.

- Vocês humanos são muito fáceis de ler! Tu és um humano particularmente engraçado, deixa-me que te diga. Não precisas de ter vergonha de apreciar a beleza de um deus. No fundo, todos somos um só. Por isso, ao apreciares a minha beleza, estás a apreciar-te a ti mesmo.

Mikel embatucou e nada disse. Ficara sem resposta. Hórus voltou a rir-se.

- És um querido. A sério. Estou muito feliz por estar aqui contigo. E agradeço-te por teres cuidado de mim e por me teres salvo. Sem ti, provavelmente eu já não existiria....

- Ora essa, não digas isso, Hórus! O mérito é teu. Aliás, quem me deu a chave em primeiro lugar foste tu, por isso... Mas, já agora, queres fazer o favor de me explicar o que se está a passar? Como é que do nada me aparece um deus do Egipto na minha sala, doente, a vomitar coisas horríveis? Ohhh! Ainda mais essa! Tenho de ir limpar aquilo! - exclamou Mikel, batendo com o punho na cabeça, sem dar tempo para Hórus falar.

- Tem calma! - trovejou Hórus e o Tempo parou. Mikel ficou estático no Tempo sem se poder mobilizar. - A culpa disto é minha, o mínimo que posso fazer é ser eu a cuidar disto...

E assim, Hórus convocou Ammit, um demónio verde-veneno em forma de crocodilo, com cabeça de leão e patas de cão, que nos Tempos antigos se julgava ser o Patrono do Julgamento Divino. Hórus explicou-lhe o que se passara e pediu a este para devorar os despojos que ele largara. Ammit aceitou e devorou-os, já que entre os pedaços estavam órgãos internos de Hórus que, depois de implantada a cruz Ankh, haviam sido restaurados. Mikel observava tudo imóvel, sem se pode mexer. Depois de devorar os despojos, Hórus deu ordem a Ammit para ir embora e este desapareceu. O Tempo deixou de estar parado e Mikel caiu ao chão.

- Como é que fizeste aquilo? - perguntou.

- Agora que recuperei completamente, estou na plena posse dos meus poderes. Sou capaz disto e de muito mais! Que tal se te sentares? Preciso de conversar contigo... - declarou Hórus com um ar sério.

Mikel sentou-se num dos sofás da sala. Convidou Hórus a sentar-se também, atirando-lhe uma almofada para ele colocar sobre as pernas.

- Porquê?

- Porque senão vou-me distrair a olhar para aí, ah ah ah! Por favor, conta-me lá então!

E assim, Hórus começou a falar. Contou tudo desde o princípio. Que tinha sido convocado um Concílio, que tinham-se reunido no Jardim dos Deuses, que Chibi e os Principados tinham aparecido, que um deles lhe tinha explicado as coisas e...

- E depois, ele baixou o capuz! Nem imaginas quem ele era! Vê lá tu que o Ángel é um dos Principados! É o Principado da Chama Verde! Ups! - exclamou Hórus levando a mão à boca. 

Já falara demais.

Mikel não podia acreditar! Com os olhos marejados de lágrimas, perguntou:

- O Kit-chi? O meu Kit-chi? O meu falecido noivo é um dos Principados? Isso quer dizer o quê?

Arrependido de ter falado no assunto, Hórus decidiu abrir o jogo. Sabia que Mikel não podia saber toda a verdade ainda, mas aquela verdade ele deveria saber. Ele merecia saber aquilo.

- É verdade. O Ángel é um dos Principados. Por outras palavras, isso quer dizer que ele é um dos Guarda-Costas do Criador de Tudo. Mikel, ele é o Destino Personificado. Ele veio à Terra para cumprir uma missão contigo e ajudar-te a cumprires a tua. Ajudar-te a despertares. E era só isso. A vossa missão era essa. Está na hora de tu seguires em frente e libertares o teu coração, de uma vez por todas.

- Tenho medo, Hórus, tenho muito medo... O que me vai acontecer se largar o que me resta? É tão complicado gostar de alguém... Eu sei que tenho sido muito egoísta em manter-me conectado a ele, mas... Neste momento, ainda não consigo fazer isso. Talvez daqui a mais algum tempo, me sinta preparado para isso. Agora que já estou a saber disto... Alguma coisa aconteceu?

Hórus levantou-se e seguiu até uma das janelas da sala. A sala era muito ampla. Simples, bonita e confortável. Observando o que se passava no jardim, prosseguiu:

- Chibi-sama, o Criador, estava a falar-nos sobre um mal que anda a provocar problemas pelo Universo inteiro, mesmo entre as diversas dimensões. Ele e os Principados estavam a combater contra as Potestades, mas tiveram de bater em retirada pois este mal era demasiado forte. Falando nele, olha, de repente, ouvimos um estranho rasgar e passos a serem dados. Eram dois vultos que traziam com eles um ectoplasma invencível. Onde quer que ele tocasse petrificava as suas vítimas e sugava-lhes dos dons e energia vital. Os vultos fecharam as saídas do Jardim dos Deuses, Não sei o que aconteceu a Chibi, que desapareceu. Sei que Vesta, a Guardiã do Fogo Sagrado, foi morta à minha frente pelos vultos e que os Principados foram atacados de surpresa pelas costas pelo estranho ectoplasma, acabando petrificados. Eu próprio tentei combater contra aquela coisa, mas sem grande sucesso. Aquilo arrumou comigo com um só golpe. Quando dei por mim, já estava nas costas de Árion, um Pégasus Alado, a caminho de um local onde me pudessem tratar...

Mikel olhava para ele boquiaberto! Não só acreditava em tudo o que Hórus dizia como, se fechasse os olhos, conseguia ter "flashes" de alguns dos horríveis momentos que este havia passado.

- E acabaste por vir parar à Terra como? - perguntou.

Hórus voltou a sentar-se.

- Os Mestres Ascensos tentaram curar-me de diversas formas. Fui tratado pelo maior Mestre de cura que existe, mas mesmo ele, revelou-se incapaz de me salvar. Por fim, descobriram que a única forma de me curar seria se eu recuperasse a minha chave. Ela é o meu Selo Divino, entendes? Sem ela, eu acabaria pior que morto... Mas há outro motivo! - Hórus voltou a levantar-se. - Onde estão as minhas roupas?

- Na sala onde estive a fazer-te o tratamento, porquê?

Hórus encaminhou-se para lá, seguido de Mikel. Chegados lá, para espanto de Mikel, as roupas que outrora estavam um "farrapo", começavam a regenerar-se. Com elas, surgiu uma lança em ouro puro.

- Aqui está! - exclamou Hórus. Amanhã estará tudo pronto!

- O quê?

- Espera e verás! - foi a resposta do deus, rindo-se divertido, perante o olhar curioso de Mikel.

- Presumo que queiras tomar um banho e comer alguma coisa? Gostas de alguma coisa em específico? - perguntou Mikel, abandonando a salinha e seguindo para a cozinha.

- Ahm, bem... Eu nunca comi nada dos humanos, embora os nossos alimentos sejam idênticos aos vossos por fora. Os nossos são pura energia... - retorquiu Hórus, um pouco atrapalhado.

- Estás na 3ª dimensão, por isso tens que te sujeitar as leis dela, certo? Tens de viver como um humano, apesar de teres dons divinos e essas coisas... Acho eu... - respondeu Mikel, ainda mais atrapalhado que Hórus. Não queria que o deus ficasse chateado com ele.

- Oh, não estou chateado, tu tens toda a razão! - respondeu este, sorrindo. Mas vais ter de me ajudar, porque aqui entre nós... - Hórus baixou a voz até ficar quase num murmúrio inaudível. - Eu nunca passei muito tempo entre os humanos, esta será a primeira vez! Das outras vezes, venho só para me divertir um pouco e vou logo embora!

Mikel começou-se a rir, divertido. Entrando no jogo, respondeu num murmúrio:

- Por mim tudo bem. Queres que te vá preparar um banho, então? Depois comemos alguma coisa?

- Sim!

Passados uns minutos, chamou Hórus. Este andava entretido a fazer nascer flores no jardim e a aumentar as heras que protegiam a casa de olhares indiscretos. Estava mesmo satisfeito.

- Estás a gostar da vida terrena? - perguntou Mikel.

- Era capaz de me habituar!

- Pois, queria-te ver a viveres cá, mas sem poderes divinos! Ah ah ah ah! - Vá, pró banho! - rematou Mikel, convidando o deus para uma grande banheira da qual vinham uns cheiros muito agradáveis. 

A banheira estava quase cheia de espuma. Hórus sentiu um prazer imenso ao entrar naquelas águas.

- Hummmm! Que bom! Anda também! - exclamou Hórus, com um sorriso feliz! Está mesmo agradável!

Encolhendo os ombros, numa atitude de "E porque não? Afinal, que mais me pode acontecer hoje?", Mikel despiu-se e entrou na banheira.

- Olha lá, tu nasceste com esta cabeça de falcão ou isto é uma máscara que tu podes retirar? - perguntou, aproximando-se de Hórus e timidamente tocando no rosto deste pela primeira vez.

- É uma máscara, sim. A energia que está implantada em mim advém desta criatura a que chamas falcão. Incomoda-te? Queres ver o meu rosto? - sussurrou Hórus, tocando no rosto de João, fazendo-o corar que nem um tomate.

- Desculpa, não leves a mal. É só que... É a primeira vez que estou assim, com um ser como tu...

- Não tens que pedir desculpas, meu querido Mikel, eu compreendo. Eu já vi que tu és muito genuíno, por isso, a ti, vou mostrar-te o meu verdadeiro rosto. Espero que não te assustes. 

Hórus mergulhou na banheira e quando veio à tona, a sua máscara começou a quebrar-se...  

[Continua...]

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