Entrelinhas - Opostos

De regresso às aulas.

Para mim era o início de mais um ano lectivo, chato como sempre. Não me apetecia continuar naquela escola. Os meus colegas não me compreendiam nem me respeitavam. Sofro de trissomia 21 e isso fazia-me sentir-me à parte e com vergonha de mim mesma, mas os meus pais tinham sido peremptórios:

- Margarida, ficas nesta escola ou dizes adeus às aulas de equitação!

Não tive outro remédio a não ser assentar com a cabeça e virar costas, amuada. Andar a cavalo tinha-se tornado um vício do qual eu não prescindia mais. Quando cavalgava, sentia-me livre. Os meus cabelos castanhos, longos, ao sabor do vento. E os cavalos pareciam compreender-me melhor que as pessoas.

Tudo corria bem, até que, há algumas semanas, conheci a Cátia. Ela era uma rapariga de cabelos loiros, abaixo dos ombros, mais pequenos que os meus. Era muito vaidosa, sempre em cima da moda. Parecia que a moda é que a seguia a ela. Andava sempre com óculos de sol para fingir que não conhecia ninguém. Achava-se a mais bonita de todas as cavaleiras do picadeiro, passando o dia a ver-se ao espelho e a pentear os seus cabelos loiros. Um dia, fomos obrigados a saltar aos pares. Calhou-me a Cátia como parceira. A decisão não agradou a nenhuma das duas, mas tentei sorrir, timidamente. Quanto à Cátia, virou-se para o treinador e disse:

- Não quero sujar a minha roupa, nem estragar o meu penteado, já que o meu cabelo tem que estar sempre bonito! A Margarida que salte sozinha, que eu salto depois!

Triste, virei costas e aproximei-me do cavalo, montei-o e comecei a praticar os saltos. Cátia recebeu uma chamada e começou a falar alegremente com alguém. Parecia outra pessoa! Com voz de cordeirinho, doce e ingénua! Como ela era falsa! Distraída, acelerei o cavalo e ao darmos um salto, ele bateu com as patas sob uma poça de água! E a Cátia, distraída com a conversa ao telemóvel, estava bem perto da poça e assim…ficou toda molhada! Atrapalhada, saltei do cavalo e ia pedir-lhe desculpas quando ela se vira para mim, furiosa:

- Tu és tão parva! Molhaste-me toda! Vai para longe de mim que já me estragaste o penteado!

- Desculpa, a sério! Não foi por mal! Não foi de propósito! – respondi, com voz trémula.

A Cátia virou costas a praguejar. Eu saí dali a correr, rumo aos estábulos e comecei a chorar mal me vi sozinha. Será que ia ser sempre assim? As pessoas estavam sempre a fazer-me sentir mal. Sentia-me horrível e muito triste com a atitude da Cátia. De repente, ouço passos. Era a Cátia. Aproximou-se de mim e sorrindo levemente, disse:

- Olá Margarida. Olha, queria pedir-te desculpa pelas minhas atitudes. Eu não devia comportar-me assim, não foi esta a educação que me deram…ao ver-te a correr e a chorar, apercebi-me do mal que estava a fazer. Serás capaz de me perdoar?

Sorri para ela e acenei com a cabeça. A partir daquele momento, eu e a Cátia tornamo-nos amigas. E sabem a melhor? A Cátia é da minha turma! Acho que afinal este ano lectivo vai correr um bocadinho melhor do que o costume!

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