Vírgulas do Destino: Meandros da Vida, Capítulo 2 [PT]

Capítulo 2: Revelações Inesperadas


Encontrei o rapaz a acender um pauzinho de incenso. Dentro da tenda, o ambiente era intimista, mas acolhedor. Algumas velas pequeninas ardiam aqui e ali. Uma música suave ecoava pelo espaço. O rapaz sorriu-me enquanto se servia de um chá e disse:

- Boa noite! Por favor, senta-te!

Assenti com a cabeça, murmurando um tímido "boa noite". Pousei as minhas coisas. Estava um bocadinho nervoso. O rapaz prosseguiu e perguntou:

- Então, como te chamas e o que te traz até cá?

Sorri um pouco e respondi:

- Eu sou o Caim. Estou de visita a Portugal. Ao passar por aqui, apercebi-me que estava a decorrer uma noite especial e decidi entrar.

O rapaz sorriu-me e assentiu com a cabeça. Era da minha altura. Moreno, ele tinha os cabelos castanhos-escuros, pelos ombros. Tinha as famosas madeixas californianas que já ouvira falar. As dele eram em tons férreos. Embora nunca tivesse visto um rapaz com este tipo de madeixas, gostei do resultado. Assentavam-lhe bem. Uma argola na orelha esquerda dava-lhe um certo ar rebelde. Os seus olhos eram castanhos. Transmitiam paz e tranquilidade. O seu sorriso era simpático e bem-disposto.

Estava vestido com uma camisa preta, aberta, mostrando uma t-shirt laranja. Ao peito ele trazia um pendente com uma clave de sol. Tal como eu, ele parecia gostar de vestir preto, pois as calças eram pretas e as sapatilhas dele também [embora os atacadores fossem num tom laranja-fluorescente].

- Então Caim, o que te traz até nós? - perguntou ele.

- Bem... - comecei eu - Eu queria perguntar ao... - Como é que te chamas? - inquiri, levemente corado.

Ele riu-se divertido e fazendo uma pequena vénia respondeu:

- Peço desculpa, nem me apresentei. Eu sou o Mikel, muito prazer em conhecer-te!

Cumprimentei-o e sorri.

- Mikel, eu gostava de saber umas coisas nas cartas, se puder ser...

Ele assentiu com a cabeça, sorrindo. Pegou no baralho e virando-se para mim, explicou:

- Toma, entrego-te o baralho. Vais pensar numa pergunta que queiras fazer, baralhas as cartas e quando achares que estás pronto, partes o baralho. Eu vou recolher as cartas e veremos juntos a resposta à tua pergunta, sim?

- Ok! - respondi.

Peguei no baralho. A princípio comecei a ver as figuras. Era um baralho muito bonito. Diferente dos que eu conhecia. Comecei a pensar no que haveria de perguntar. Havia algo que eu queria saber, mas... não sei se tinha coragem de perguntar...

- "Bom, vamos lá..." - pensei.

Baralhei as cartas.

Durante algum tempo, Mikel limitou-se a observar-me em silêncio, concentrado. Quando senti que estava bem, parei. Parti o baralho em 3 partes. Ele recolheu as cartas e sorrindo para mim, perguntou:

- Qual é a pergunta? O que é que pretendes saber?

Sorri timidamente e baixei os olhos.

- Queria saber... Bem, queria saber se fiz bem em vir passar uns dias a Portugal... - respondi, num sussurro.

Mikel sorriu, levemente surpreso.

- "Não deve ser a pergunta típica que lhe fazem...mas para mim é uma pergunta importante..." - pensei eu.

Ele pegou nas cartas e começou a lançá-las na mesa. A sua expressão, ao longo da tiragem, foi-se alterando. O seu sorriso, sempre bonito, esmoreceu-se. O seu olhar escureceu. Os seus olhos ficaram brilhantes e com uma dor intensa. Senti que ele tinha visto algo que o havia perturbado bastante.

Baixei o olhar.

Aguardei.

Ao fim de alguns momentos, Mikel olhou para mim e começou a leitura:

- Caim, a tua viagem até Portugal foi bastante ponderada. Tu não querias vir. Querias continuar no teu cantinho, no escuro. Foram os teus familiares e amigos próximos que insistiram para que viesses. Acredita que, depois do que aconteceu ao rapaz de cabelos escuros ou pretos, esta viagem, foi sem dúvida, a melhor coisa que fizeste.

Olhei-o nos olhos. Seria possível?

Mikel prosseguiu, apontando para algumas cartas:

- Este rapaz era muito importante para ti. Ele representava a tua Felicidade. Conhecia-te como ninguém mais te conhecia...

Comecei a chorar. Percebi de imediato que o Mikel tinha receio de me dizer tudo o que vira nas cartas, que estava a escolher as palavras a dedo para não me magoar, mas eu tinha a certeza que ele já percebera tudo. Em silêncio, pegou num pacote de lenços e entregou-me. Foi buscar uma chávena de chá, encheu-a e passou-me.

- Toma. É um chá de rosas que a Mariana, a dona do bar, costuma preparar para mim. Vai fazer-te bem. - respondeu, sorrindo ternurento.

Peguei na chávena.

Levei à boca e provei. O sabor era agradável.

Tirei um lenço e assoei-me.

Peguei na chávena. Bebi mais uns goles.

Ele olhava para mim.

Pousei a chávena.

Ia fazer-me bem desabafar.

- Como foi que aconteceu? - perguntou Mikel, num sussurro.

Não aguentei mais.

Abracei-me a ele a chorar. Ele abraçou-se a mim com muito carinho, confortando-me. As lágrimas que eu mantivera cativas cá dentro, finalmente encontraram um lugar onde as pude libertar...

- Está tudo bem, fofo... Chora à vontade... - sussurrou Mikel.

Ele começou a fazer-me festinhas no cabelo e a aconchegar-me contra o seu peito. Eu sentia o seu calor e o seu carinho. Sentia-me bem e protegido. Deixei-me estar assim por algum tempo. Mikel chorava em silêncio. Sentia os seus soluços.

Olhei-o nos olhos.

Mikel afastou-se um pouco de mim, pegou num lenço e disse:

- Eu peço-te desculpa... Não costumo reagir assim...

Abracei-o novamente.

- Não faz mal. Abraça-me, por favor... - sussurrei.

Ele abraçou-me e suspirou:

- Há muito tempo que não encontrava uma pessoa como tu, sabes?

Ganhei coragem e comecei a falar:

- O que tu viste está certo. O rapaz de cabelos pretos era o Santiago. O meu namorado. Ele... - recomecei a chorar.

- Ele morreu num acidente, não foi? Num estúpido acidente.... Causado por um homem... - murmurou Mikel.

Suspirei.

- É verdade. O Santiago tinha-me levado ao Instituto onde trabalho. A nossa cidade tem muito trânsito, pelo que fomos de mota. Depois de me deixar, ele foi para o trabalho dele. Estava parado num semáforo, quando foi abalroado por um condutor. Ele vinha distraído a falar ao telemóvel e quando se apercebeu que o semáforo estava vermelho, travou a fundo, mas foi tarde de mais...

Mikel permanecia em silêncio. Lágrimas rolavam pelo seu rosto.

Prossegui.

- O Santiago era um rapaz lindo. Magro, mais alto do que nós, cabelo preto, liso,"emo style", estás a ver? Olhos azuis... Ele era muito giro... E tinha cá um sorriso...

- Pois, consigo imaginar... - respondeu ele.

- Quando ele abalroou o Santiago - que não levava o capacete na cabeça porque "eu adoro sentir o vento a roçar nos meus cabelos!" - dizia-me ele muitas vezes... Foi projectado vários metros. Sofreu vários traumatismos e entrou em coma. Os médicos disseram que se ele algum dia recuperasse, iria ficar com lesões permanentes e viveria dependente de outras pessoas o resto da vida. Acabou por morrer há 9 meses atrás... - rematei.

Mikel serviu-me um pouco mais de chá. Ele não parara de chorar, embora me apercebesse que ele estava a fazer todos os possíveis para se controlar. Intrigado, perguntei:

- Tu és mais sensível do que eu podia imaginar, Mikel. Algum motivo para seres assim? - inquiri, fazendo-lhe um afago.

Ele fungou e tirando um lenço para se assoar e limpar o rosto, disse:

- Sabes Caim... A tua história é parecida com a minha. Conheci o Ángel por mero acaso, um Acaso do Destino, durante um intercâmbio de estudantes. Nós começámos a falar, a conviver e depressa nos apercebemos que quanto mais tempo passávamos juntos, mais tempo queríamos passar! Sentíamos muito a falta um do outro. O Ángel era um fofinho. Muito doce e terno. Mais baixinho que nós, [dava-me pelos ombros], olhos azuis, pele clara e um ar muito feminino. Aliás, a primeira vez que nos vimos e me dirigi a ele, pensei que era uma rapariga!

Mikel riu-se, divertido.

- Felizmente, era um rapaz! E que rapaz! - exclamou, piscando-me o olho.

Ri-me docemente.

Mikel falava com ternura e os seus olhos estavam muito brilhantes. Senti que também ele precisava de desabafar.

Aguardei.


- Eu e o Ángel tínhamos uma relação muito cúmplice. Namorámos durante um ano e meio quando ele me pediu em casamento. Íamos fazer 4 meses de noivado, quando ele foi atropelado ao atravessar numa passadeira. A condutora estava cheia de pressa e ultrapassou vários carros. Ao aperceber-se... O impacto foi muito grande. O carro foi contra ele e atingiu-o em cheio. Ele rolou para cima do carro, "voou" literalmente alguns metros e depois caiu, ainda meio consciente. Segundo testemunhas e os socorristas, ele só murmurava:

- "Oka-chi... Oka-chi..."

- Oka-chi? - perguntei.

- Eu e o Ángel andamos a estudar japonês durante algum tempo. Ele começou a chamar-me Oka-chi*... Ele era o meu Kit-chi*... - respondeu Mikel.

* Nota do Autor - [Oka-chi significa "lobinho"; Kit-chi significa "raposinho"].

- Awww! Que fofinhos! - suspirei. - Mas... Espera lá! Então...ele estava a chamar por ti! - exclamei, chocado.

Mikel assentiu com a cabeça.

- É verdade... O Kit-chi estava a chamar por mim. Quando me contactaram, fui logo para o hospital, mas ele sofreu uma hemorragia interna e teve uma paragem cardíaca. Já não chegou vivo ao hospital.

Fiquei a chorar em silêncio. Abracei-me ao Mikel, que chorava também. Perder alguém assim, era terrível... Eu compreendia bem a dor que ele estava a sentir.

Ficámos assim por algum tempo, em silêncio.

- Bom, queres perguntar mais alguma coisa às cartas? - perguntou ele, minutos depois, enxaguando os olhos e fazendo um pequeno sorriso.

Pensei. O que haveria de perguntar?

- Está bem. Gostava de saber como vão correr os próximos dias cá em Portugal, antes de voltar para casa...

- Muito bem! Vamos ver isso então!

Voltei a baralhar as cartas, parti em 3 partes. Mikel recolheu-as e começou a dispô-las na mesa.

- Hummm! Sim senhor! - sussurrou ele.

- Então? O que dizem as tuas cartas? - perguntei, curioso.

Com um sorriso misterioso, Mikel pigarreou e começou a cantar:


Uma viagem estás a fazer,
Para uma perda superar.
O Destino fez-te conhecer
Aquele que te vai ajudar.

Novos amigos vais fazer,
A tua aventura vai continuar.
Uma raposa vais conhecer,
Um rapaz transtornado, vai-te guiar.

Quando o tempo aquecer,
Num jardim à beira rio, a raposa vais reencontrar.
Algo especial vai então acontecer:
Mas, no fim do dia, o encanto vai-se quebrar...


Eu fiquei surpreendido!

- Wow! Tu és sempre assim?!? - perguntei espantado.

Ele sorriu, corando um pouco.

- Não, nem por isso... - respondeu.

Corei também. Sorri para ele e disse:

- Obrigado! A sério! Gostei! O passeio a Lisboa vai ser uma viagem interessante! - concluí.

Mikel sorriu e assentiu com a cabeça:

- Sem dúvida que sim! Vais gostar, embora vás sentir a falta de algo...

Suspirei feliz.

Sentia-me bem. Muito bem mesmo. A conversa com o Mikel estava a ser muito boa.

- "Bem que gostava de a prolongar..." - pensava eu, quando a Mariana apareceu.

- Mikel, está quase na hora de fechar! Espero que tenha corrido tudo bem!

Ele sorriu e disse:

- Correu sim, muito bem mesmo! - exclamou, olhando para mim.

Mariana voltou as costas a sorrir e Mikel começou a arrumar as suas coisas. Virei-me para ele e perguntei-lhe:

- Mikel, gostas de cantar? Parece-me que tens jeito para isso! - disse, piscando-lhe o olho.

- Por acaso... Gosto sim, alivia-me a alma e aquece-me o coração...

- Então desafio-te a irmos ali para o centro da praça e cantarmos uma canção... Podia ser uma canção em homenagem ao Santiago e ao Ángel. Que me dizes?

Mikel olhou-me sério.

- Que interessante! Soa-me bem! Vamos lá! Mas primeiro...

- Sim? - inquiri.

- Tenho de ir à casa de banho! Estou apertadinho! Não fui a noite toda...! - sussurrou ele, a rir-se.

Ri-me também e respondi:

- Eu também! Posso ir contigo?

- Claro! Anda daí! - respondeu Mikel, com um sorriso.

Lá fomos os dois à casa de banho. Sentia-me cada vez melhor e mais confortável na companhia dele. Estava feliz como há muito não me sentia. E ele também. Com um sorriso cúmplice, fizemos o que íamos fazer. "Possa, que alívio!" - dissemos os dois ao mesmo tempo e quando fomos lavar as mãos, começamos a brincar um com o outro, jogando água, na brincadeira. Abracei-me a ele e preparava-me para o beijar, quando um rapaz entra na casa de banho...

- Ups!!! - dissemos os dois, começando a rir e a tossir ao mesmo tempo, enquanto saíamos da casa de banho, corados que nem dois tomates.

Fomos buscar as nossas coisas e depois de nos despedirmos da Mariana e das restantes funcionárias, seguimos para a praça.

Chegados lá...

- Que canção vamos cantar? - perguntou-me ele.

- Que tal esta? Conheces? - respondi, cantando um pouco.

- Uau! É linda! Conheço sim! - respondeu Mikel, com um grande sorriso.

Peguei no estojo e tirei de lá o meu baixo. Virei-me para ele e disse:

- Quando quiseres...

- Aos 3, tim? - sussurrou ele.

- 1,2,3!!! - gritamos os dois a rir.

E começamos a cantar:


[Caim & Mikel]

O vento que brilha com sete cores
Soprará, anunciando um novo dia.
Eu cantarei novamente esta canção:
A canção triste, que me faz sempre chorar...

Estes pássaros que voam para o céu oriental,
Eles estão a seguir um atalho, rumo ao Paraíso!

No Paraíso dos Sete Mares
As nossas vidas renascerão
Para que eu possa comunicar o meu amor, depois da noite tempestuosa!

Eu cantarei esta melodia
Que foi criada para mim
No dia em que tu partiste daqui
Para que tu não te esqueças de mim!

As nuvens desaparecem lentamente,
Revelando aquele belo arco-íris!

As estrelas são como pérolas:
Começam a libertar uma luz forte!

Eu posso ouvir um assobio, vindo dos céus do sul!
É verdade!
Pude escutar alguém a chamar-me:
Uma aventura, ir ao encontro de um milagre!

Todos nós viajamos numa jornada, enquanto abraçamos os desejos dos nossos corações!
A fantasia de uma noite com estrelas cadentes,
Transbordando lágrimas, com uma oração,
Ilumina um futuro desconhecido a todos nós!

Entramos numa aventura
Cheia de milagres em que eu e tu
Descobrimos algo
Ao qual algumas pessoas chamam de Amor.

Sinto que é uma fantasia
Como as estrelas olham para nós!
Um futuro que ainda não existe
Mas eu sei que conseguirei alcançar!


Quando terminamos, uma multidão rodeava-nos.

Olhei para o Mikel, que estava a chorar, tal como eu.

Sorrimos um para o outro.

Toda a gente bateu palmas, muitas pessoas choravam também.

Abraçamo-nos e olhamos para o céu, sussurrando:

- "Ángel, Santiago, nunca vos esqueceremos... Obrigado por tudo!"

shotting-star

Uma estrela cadente cruzou os céus.

Eu e o Mikel sorrimos um para o outro.

Cúmplices, beijamo-nos finalmente.

Ouvimos uma enorme ovação de todas as pessoas que ali estavam.

Elas eram as testemunhas do nosso renascimento.

[Continua...]

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Sexo oral. Porém escrito!

Projecto "Baleia Arco-Íris" [Update]

Animal X Animal